Moncho do Fidalgo, numerário da AGLP com 57 anos de consciência reintegracionista: “é um movimento lento, mas seguro! Não há outra saída”
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O autor da primeira narrativa longa em português da Galiza apresenta A menina da Ribeira, o seu oitavo título
AGLP. 09/05/2026
Texto: J. Rodrigues Gomes; Fotografia: José Manuel Barbosa; Coordenação linguística: Antia Cortiças Leira; Produção: Xico Paradelo.
Como "uma novela realista e em partes históricas": assim apresenta José Ramão Rodrigues Fernandes , Moncho do Fidalgo, numerário da Academia Galega da Língua Portuguesa, a sua última obra, intitulada A menina da Ribeira . É o oitavo título de quem foi o primeiro autor a publicar narrativa longa em português da Galiza, um percurso iniciado em 1983, segundo salienta um estudo do professor e investigador Francesco Traficante. Outro professor, José Manuel Barbosa, afirma no prólogo deste último livro que o que faz o narrador é “deixar a sua memória pessoal convertida em memória coletiva do nosso povo galego, em memória da nossa língua, da nossa cultura, da nossa civilização e da nossa forma de pensar e de perceber o mundo”. A menina da Ribeira teve um lançamento nas Jornadas de Língua e +, que foram organizadas pela AGLP no Museu da Límia, em Vilar de Santos, onde o acompanhava Isaac Alonso Estraviz. Moncho do Fidalgo, que profissionalmente se dedica à eletrónica industrial e às telecomunicações, destaca como um ativista cultural, literário e jornalístico e fala-nos nesta entrevista de sua biografia, trajetória e produções. Está na casa dos 70, já reformado, e tem “57 anos de consciência reintegracionista”, afirma.

-Apresenta-se A menina da Ribeira como “um romance realista e em parte histórica”: como é isso, que se deve entender por “realismo” e “romance histórico” nesta altura do século XXI?
--Bom, afirmar o realismo do século XXI é o que foca na representação objetiva da realidade. Crua e honesta, destacando questões sociais, desigualdade e vida atuais. O romance histórico, caracterizar-se-á por uma documentação ou fatos históricos, mesmo para mudar conceitos e revisar acontecimentos. A menina da Ribeira enquadra-se nestas duas visões.
-Publica esta narrativa em 2025, quando completa os 70 anos de idade. Parece um trabalho literário de síntese da sua vida, pois nele deparamo-nos com muitos acontecimentos conhecidos da sua biografia e trajetória. É assim?
--Sim, a personagem, Ricardo Aveiro, aparece em todas as minhas novelas e romances.
-Literariamente, também vamos encontrando muitos produtos seus anteriores. A Divisão Azul, por exemplo, já estava na sua primeira narrativa, O Sereno, um guerrilheiro em Estalinegrado; ou acontecimentos de Seguindo o caminho do vento, de relatos já publicados, que agora integra de novo n’A menina da Ribeira. Confirma-se assim a conhecida teoria de que sempre um escritor está a escrever e reescrever a mesma obra?
--Poderia dizer-se, o meu subconsciente é livre, não trato de o dominar, vai pela vida tocando a mesma moinheira, que, poderia interpretar-se assim, e esta seria a de Chantada... com versões diferentes e até arranjos distintos. Afinal os resultados poderiam ser obras diferentes. Nos meus anos moços estudei no Conservatório de Madrid, ensino livre: estudava numa academia e examinava-me no conservatório, quando ele estava nos baixos do Palácio da Música, em Ópera. Naquela altura não tocava mal o acordeão, mas hoje já não tenho a precisão matemática que tinha. Dizia Arthur Rubinstein que quando não tocava um dia ele notava, quando eram dois dias sem praticar, notava-o o público.
-Outra surpresa é o recurso cervantino de ler uma referência ao processo de composição da narrativa que estamos a ler, fala-se do livro de A menina da Ribeira no próprio livro. E também cita Cervantes, mesmo como possível produtor de ascendência galega, nas suas obras. Reconhece este autor, que é o centro do cânone literário espanhol, como uma das suas influências centrais?
--Cervantes Saavedra, apelidos galegos, tem influído em muitos escritores sem eles saberem. Os primeiros livros que os alunos leem é o Quijote, mas no meu caso acho que não tem influído. Sim Eça de Queirós no Primo Basílio ou Miguel Torga com a Vindima e Contos da montanha.
-O tratamento que dá à personagem da menina da Ribeira é muito diferente a outras personagens femininas da sua anterior produção, como a de Colensa de Seguindo o caminho do vento, ponhamos por caso. É esta uma mudança muito significativa, a que a atribui?
--A Colensa faz parte de um romance e de uma ficção, A menina da Ribeira é uma pessoa real. Levamos mais de vinte anos casados.
-O professor Francesco Traficante põe em destaque num estudo que você foi o primeiro narrador em galego-português, com O Sereno, um guerrilheiro em Estalinegrado, editado em 1983 (2ª ed. em 1990). A menina da Ribeira é o seu oitavo título de narrativa: Como valoriza esta trajetória no campo literário galego nestes já quase 43 anos?
--Há uma realidade na Galiza, enquanto alguns vivemos para o galego, nosso idioma internacional, outros vivem do galego. Os autores que escrevemos em galego-português fazemo-lo em condições muito diferentes, não publicamos nas editoras do “regime”, não gozamos das ajudas do governo galego nem dos meios oficiais. Eu estou feliz de ter atingido uma meta considerável, dada a situação do mundo editorial na nossa nação.
-Em A menina da Ribeira afirma-se que a língua galega na Galiza “continua viva e vai seguir por muitos milénios mais”: em que se sustenta esse otimismo, quando os dados espelham uma situação bem distinta, caminho da substituição linguística pela língua espanhola?
--Tenho esperança na mudança da gente jovem. Observo que nas cidades começa um pequeno movimento de “neo-falantes”. Quiçá tenhamos que olhar o drama para agir?
-Foi secretário, da seção de Escritores em Língua Galego-Portuguesa nas Irmandades da Fala de Galiza e Portugal, como funcionou e que conseguiu com aquela experiência?
--Foi uma experiência grata, colaborar com o amigo José Luís Fontenla deu-me uma nova perspectiva, era uma pessoa otimista por natureza, as viagens a Portugal e o relacionamento com organizações portuguesas deu-me muita experiência e confiança no povo português.
-Desde a primeira metade da década de 1980-1990 pertenceu à AGAL e às Irmandades da Fala de Galiza e Portugal, uma dupla militância que para muitas pessoas resultava incómoda e difícil, como a lembra agora?
--Eu sempre pensei que trabalhar pelo regeneracionismo do galego era positivo. Quiçá nuca me dei de baixa da AGAL porque em certo modo ajudei a criá-la, eu que sei…!
-Como valoriza a evolução do reintegracionismo após mais da metade da sua vida de dedicação a esta causa?
--Eu sou “reintegracionista” desde os treze anos por diversos motivos. Quando vinham os portugueses pela minha aldeia todo o mundo comprovava que o que falavam nós o entendíamos. Após aqueles anos de infância e o meu deslocamento a Madrid com treze anos, nos Salesianos de Atocha, coincidi com alguns estremenhos, espanhóis, a falarem português... Acho que é um movimento lento, mas seguro! Não há outra saída.
-Na década de 1970-1980 conhecemos trabalhos seus na imprensa galega e em Portugal onde publicamente defendeu as teses de Rodrigues Lapa. Lapa mesmo lhe respondeu, e cita o seu nome, num trabalho na revista Tempo. Que significa este vulto português para si e na sua trajetória?
--Em Madrid conheci muita gente relacionada com Portugal, mesmo portuguesa, a cada passo ia afiançando mais o meu convencimento. Rodrigues Lapa foi um visionário, quando escrevi ao semanário Tempo, de Lisboa, eu ainda não tinha conhecimentos da língua bem escrita. Os conhecimentos vieram pela comunicação epistolar com Ricardo Coelho Iglésias, o português do Porto.
-Tem uma interessante experiência no jornalismo. Colaborou com A Nosa Terra e promoveu o projeto das publicações e a editora Renovação. Também deparamos com isso em A menina da Ribeira. Que significado lhe atribui ao jornalismo na sua produção?
Eu, de não ter estudado ciências, teria estudado jornalismo. O jornalismo usei-o sempre para desabafar, recusar ideias de política rança. Morto aquele projeto de Lôstrego, uns quantos reintegracionista co-fundamos Renovação-Embaixada Galega da Cultura. E mais tarde Renovação Edições.
-Em Renovação, um projeto cultural que promoveu em Madrid, para além de figuras galegas bem conhecidas que atuavam na Galiza e na capital da Espanha, também contaram com a participação de outras do exterior. Como chegaram, por exemplo, a Ernesto Guerra da Cal e como foi o contacto com ele?
--Com Guerra da Cal contactara, não lembro se fora Fontenla ou Estraviz.
-Do ponto de vista pessoal, cultural e mesmo literário: foi em Madrid onde encontrou o amor e a felicidade, apesar de ser uma cidade que não lhe resulta precisamente simpática, pelo que depõe dela.
--Certo, mas foram as pessoas galegas que lá moravam quem fizeram que eu me sentisse como em casa. De facto o oitenta por cento das horas passava-as a falar galego; nomeadamente, com o grande amigo meu, Isaac Alonso Estraviz, grande em todos os sentidos.
-Numa recente entrevista afirma que agora está a trabalhar numa nova narrativa, que diz respeito à presença de pessoas galegas na emigração de Cuba: como está a resultar a escrita de um tema tão aliciante e distante no tempo, que materiais está a utilizar?
--De momento estou a tomar notas, amigos cubanos, livros de história...
-É um dos 30 fundadores da Academia Galega da Língua Portuguesa, que iniciou o seu andamento no ano 2008, e nas páginas de A menina da Ribeira inclui académicos numerários como Isaac Alonso Estraviz, Crisanto Veiguela Martins ou José Manuel Barbosa: como foi a sua participação neste tempo na AGLP, viu cumpridas as suas expetativas e que espera desta instituição?
--Bom, falo dos mais conhecidos para mim, mas tenho que dizer que António Gil foi um professor importante para mim, assessor linguístico no Seguindo o Caminho do Vento . Mas os méritos maiores foram os de Ângelo Cristóvão, ele mexeu-se, objetividade, especificações, trabalhados incansavelmente para fundar este projeto que começa a dar frutos e vai dar muito mais.
