Transcrição do debate nas Conferências de 8 de Outubro
- Publicado em Conferências Pró Academia
Debate Conferências de Evanildo Bechara e Malaca Casteleiro
Fac. Filologia, Univ. Santiago, 8 de Outubro de 2008, 12 h.
José Luís Rodrigues: Bem, a mim foi-me atribuído o papel de moderador assim no último momento e em consequência não está previsto que eu realize perguntas, mas suponho que aqui o público, enquanto não aparecer o Ângelo Cristóvão, poderá fazer algumas perguntas até que o organizador nos diga a que hora terminamos. Eu lembro que são horas já bastante avançadas e especialmente sei que os hábitos portugueses, no sentido das refeições, não são como os de aqui, não? Então fazemos as perguntas até que nos digam o que fazemos. O professor Antonio Gil tem a palavra.
António Gil: Eu rogaria que o moderador perguntasse primeiro.
José Luís Rodrigues: Eu cedo primeiramente aos assistentes a este acto, eu dou-lhes a palavra primeiramente, se não houver ninguém então pergunto algo.
Pergunta 1 (Xavier Vilhar Trilho): Eu perguntaria aos professores como vêem desde a sua perspetiva a falta da unidade ortográfica real das duas variantes principais do português, português de Portugal e o português do Brasil, tendo em conta que já há um acordo ortográfico.
Evanildo Bechara: O Professor Malaca Casteleiro fez parte da Comissão, de modo que eu acho que a pergunta pode ser contestada por ele.
Responde Malaca Casteleiro: Muito obrigado ao Professor Evanildo Bechara. Bom, realmente a questão ortográfica é uma longa guerra de cem anos, não é? Foi desencadeada em 1911. Foi uma declaração de guerra ortográfica, uma declaração, subjazente, indireta. Propriamente, porque Portugal nessa altura resolveu levar por diante uma grande reforma ortográfica sem ter procurado o consenso do Brasil Ora, determinar uma ortografia é um ato de soberania de um país sobre a língua, é um ato político e, portanto, não devia nunca ter sido tomada essa decisão sem o outro grande país de língua portuguesa se ter pronunciado sobre essa mesma reforma. E aí começou o grande erro do lado português. É verdade que no Brasil tinha havido já em 1907 também alguma tentativa de reforma ortográfica. De qualquer modo não foi por diante, não foi oficializada. Ainda que concordante dos dois lados do Atlântico, não podia nunca ser levada por um país avante sem realmente o outro participar nessa decisão política, nesse ato de soberania como é determinar uma nova ortografia para a língua comum.
Portanto esse é o grande problema e depois não houve nunca realmente entendimento. Nós sabemos que em 1945 -como foi aqui lembrada, a convenção ortográfica de 1945- os negociadores portugueses, coordenados pelo professor Rebelo Gonçalves, um classicista que falava o Latim e o Grego, para quem eram as línguas ainda vivas e fundamentais, conseguiu convencer os colegas brasileiros para reintroduzirem na grafia brasileira as consoantes mudas. Já tinham suprimido e suprimiram-nas com certeza por razões de alfabetização. É muito mais difícil para uma criança aprender a escrever a palavra “óptimo”, com p do que escrevê-la sem p, “director” com c, “recepção” é com p mas “direcção” é com dois c. Portanto mesmo não há articulação comum do ponto de vista fónico, e do ponto de vista morfológico há ortografia diferente; “receção” para os brasileiros, realmente, pronunciam “receção”. Mas do ponto de vista da aprendizagem da grafia, portanto uma criança portuguesa que diga /recepção/ tem que por lá um pê, mas direcção tem que escrever lá mais um c. Ora bem, por razões de escolarização, de alfabetização com certeza que essas consoantes foram suprimidas.
Ora bem, em 1945 os lusitanos, filólogos portugueses conseguiram convencer os colegas brasileiros a reintroduzir, portanto foi tudo feito segundo o desejo do professor Rebelo Gonçalves, uma grande figura - não é isso que está em causa- mas não houve consenso. Uma reforma ortográfica tem que fundamentar-se em razões linguísticas, em razões sociais e culturais, e em razões políticas, e portanto aí do ponto de vista social, do ponto de vista político, não houve realmente bom senso nessa opção que realmente foi tomada. Ainda hoje houve símiles da questão, portanto, um certo número de inteletuais portugueses com grande acesso aos meios de comunicação e que são contra a supressão dessas consoantes, porque ao suprimir essas consoantes “muda-se a fala”. A fala é uma coisa e a escrita é outra. E, portanto, naturalmente [há umas] relações entre a fala e a escrita, porque a ortografia portuguesa tem um critério fonético, no qual também se baseia, mas realmente... o alterar a grafia não implica alterar a fala, não é? Então, eu já disse, é o argumento do medo, e que se nós em direcção tiramos o c, as pessoas vão passar a dizer /dirêção/. Portanto, nós temos palavras em que a pretónica é aberta, “padeiro” por exemplo e não há lá nenhuma marca a indicar que esse “a” é aberto. Por outro lado temos “actualizar”, “actual”, temos lá o cê e no entanto a anterior é fechada, /âtual/, /âtualizar/. Portanto, esse argumento não pega mas, infelizmente, é o que tem impedido.
Portanto é unificação ortográfica porque o Acordo de 1990 foi um acordo possível. Não é o acordo ótimo, porque o ótimo seria a unificação absoluta. E então há aí alguns casos em que era muito difícil conseguir uma base comum. O principal é realmente o das esdrúxulas, em que a tónica “e” e “o” são seguidas de consoante nasal: “António”, “género”, em que do lado brasileiro usam acento circunflexo e do lado português é o acento agudo. Bom, Rebelo Gonçalves conseguiu também convencer os colegas brasileiros a substituir o acento circunflexo pelo agudo. Portanto, era tudo feito à medida do desejo de Portugal e o resultado está à vista. Ora, em 1986, numa primeira tentativa de acordo que se realizou em Abril no Rio de Janeiro, tendo do lado brasileiro o professor Antônio Houaiss, muito empenhado neste processo, optámos por suprimir os acentos, que os nossos alunos das nossas escolas têm uma certa relutância em escrever. E portanto aí tínhamos um argumento que é uma realidade que procede da escrita e portanto a pessoa já sabe que em António, o acento está na penúltima, até discutimos se as duas vogais finais não constituem de certo um ditongo crescente. ortanto, em António, sabe perfeitamente que o acento está aí, e portanto a abertura já faz parte da fala, das diferenças que há entre os falares dos dialetos. Mas esse Acordo, desse ano 86, não conseguimos sacá-lo por diante, enfim, motivou uma reação tão intensa do lado de Portugal, esses inteletuais fundamentalmente que se insurgiam contra o acordo. Depois vinham com outros argumentos, pois muito bem para as palavras de uso comum que já conhecemos o exemplo e não faz falta, mas para as palavras que se aprendem através da escrita, e, nomeadamente, do ponto de vista da aprendizagem da língua como língua estrangeira, para um estrangeiro que encontra a palavra escrita, o facto de ter o acento ajuda a fixar a imagem fónica e a imagem gráfica da palavra.
Portanto, agora, fundamentalmente o que falta é a vontade política. Não há vontade política em Portugal, não tem havido vontade política em Portugal para levar o Acordo por diante. Porque é um medo estúpido, incompreensível, de que através do Acordo Ortográfico o Brasil nos conquistará África, como se nós fôssemos os donos da África. Ou através de um Acordo Ortográfico se conquistasse alguma coisa. Mas há essa preocupação de que através da reforma ortográfica a variante brasileira do português se alargará à África. Ora, uma coisa é a escrita e outra coisa é a fala. E do ponto de vista da oralidade até alguns portugueses que falam nos países africanos lusófonos em têm muitos deles características mais semelhantes ao português que se fala no Brasil que do português que se fala em Portugal. Mas a razão fundamental é esta, não tem havido vontade política. E agora o Brasil -aí o professor Evanildo Bechara poderá dizer melhor- que se propõe aplicar o Acordo já no próximo ano, em 2008. Portugal irá depois a reboque, estou absolutamente convencido, ora era preferível que não fosse a reboque [Prof.ª Maria do Carmo Henriques: Irá para a frente] Muito obrigado, eu já me alonguei demasiado sobre esta questão e não sei se respondi inteiramente à questão.
Responde Evanildo Bechara: Quanto à respectiva ortografia, eu acredito que, se nós não lhe darmos as bases científicas de uma ortografia, jamais chegaremos a um acordo, porque já em 1911 e antes, Gonçalves Viana e Vasconcelos Abreu, em 1885-86 já tinham trabalhado no sentido de uma alteração, de uma mudança ortográfica. Tanto em 1885-86 como em 1911 nós tínhamos uma realidade educacional, cultural, diferente de hoje. A linguística nos mostra que uma língua comum só consegue relativa unidade na sua morfossintaxe e os acordos ortográficos querem fazer partir o sistema ortográfico da fonética, duma verdade fonética ou fonológica. Enquanto nós não abolirmos esta preocupação com a realidade fonética e fonológica, não chegaremos a um acordo. Nós vimos pela informação do nosso querido professor Malaca Casteleiro a grita que houve porque o dicionário da Academia registou a pronúncia lusitana, e não registou a realidade de outra pronúncia corrente em Portugal, pelo menos uma pronúncia, acredito coimbrã, de modo que enquanto os ortógrafos ficarem fixados na ortografia, fixados no elemento fonético-fonológico jamais poderemos chegar a um acordo.
Se nós compararmos uma primeira edição de Machado de Assis, por exemplo, 1886, 1900, com a mesma página de Machado de Assis hoje, nós vamos ver que o número de acentos no texto impresso hoje é muito maior, às vezes chega a quatro vezes mais os acentos usados na primeira edição ou numa edição de 1896 ou de 1900. E acontece que esse texto, com uma economia de acentos, era entendido pelas pessoas, e quando a pessoa tinha dificuldade, procurava um dicionário. O dicionário foi feito para ser consultado. Quando nós lemos inglês e quando nós lemos alemão, alemão já não digo tanto porque tem uma ortografia muito próxima da realidade fonética e fonológica, mas no caso do inglês nós nunca sabemos qual será a pronúncia daquela palavra se a vemos pela primeira vez. Eu tenho um livro de dois foneticistas americanos que dizem que se nós damos uma palavra a dez americanos, palavras que eles nunca viram, nós vamos encontrar no mínimo sete tentativas ou sete possibilidades de pronúncia. E o inglês não usa acento, então eu acredito que é o nosso grande problema, porque no sistema ortográfico nós já resolvemos os problemas etimológicos, já acabámos com os grupos gregos ph, sc, etc.
É dizer, a parte etimológica da ortografia já está muito bem racionalizada, agora fica a parte de acentuação. Ora, o emprego de um acento é como se fosse um estímulo à provocação entre realidades fonéticas diferentes, quer realidades nacionais como o Brasil e Portugal, quer realidades dentro do próprio espaço, por exemplo pronúncias diferentes no Brasil da mesma palavra e pronúncias diferentes em Portugal. Quer dizer, enquanto a o sistema ortográfico ficar aumentando o número de utilização de acentos, isto provoca uma dificuldade de uma unificação porque o acento é sempre um desafio, é sempre uma provocação a uma realidade fonética quer dentro do país, nas suas várias regiões, quer na comparação de um sistema fonológico. Ora, nós sabemos, por exemplo, na gramática nós podemos chegar a uma unidade morfossintática em todo o domínio da Lusofonia, mas não podemos fazê-lo no campo da fonética. E o que é que acontece com os ortógrafos desde Gonçalves Viana e Vasconcellos de Abreu em 1885-86, é que há uma necessidade de acentos para facilitar a pronúncia. Ora, essa facilitação da pronúncia naquela época era até justificável, porque a rede escolar era muito restrita. Nós não contávamos com os elementos da mídia falada, como nós temos hoje a televisão, o rádio, etc. De modo que mudou o panorama educacional entre 1885 e 2005-07. E, depois, o acento não garante, quer o acento quer os sinais diacríticos, não garantem a boa pronúncia da palavra, por exemplo, a palavra questão não tem trema e no Rio de Janeiro cada vez mais se acentua a pronúncia qüestão, qüestionário etc. A palavra “recém” tem um longo acento agudo na sílaba tónica e a pronúncia normal é “récem nascido”, “récem criado”, quer dizer a pessoa põe o acento mas não o respeita à hora de proferir. De modo que os ortógrafos têm dado grande importância à presença do acento. Ora a presença do acento numa ortografia vai criar situações de oposição entre a pronúncia, quer no mesmo país, quer em países diferentes. E nós sabemos que o falante resolve o seu problema, vejam por exemplo o caso do plural por metafonia: o plural por metafonia não leva nenhum acento, e todos nós sabemos quando o singular tem o timbre fechado e o plural tem o timbre aberto e que há, naturalmente, variações dessas pronúncias. Portanto, eu acho que o grande problema e a grande dificuldade de uma unificação ortográfica é que a atenção dos ortógrafos está voltada para o maior número de acentos, o que significa a maior provocação de diversidade da realidade fonética entre quer o mesmo país, quer em países diferentes. Eu creio que uma palavra como “Antônio”, proferida em Portugal com timbre aberto e no Brasil com timbre fechado, se nós não usamos o acento os portugueses continuam com timbre aberto, os brasileiros continuam com timbre fechado, e isso não é geral porque no Brasil também existe “António”, aquela região de pescadores da região dos Lagos, que é uma região de contingentes de antigos portugueses, é assim que se pronuncia a palavra, “António”. Quer a pronúncia seja “António”, quer “Antônio”, escrita sem acento nós poderemos chegar a uma unidade ortográfica. Agora se nós quisermos usar o acento com valor, com preocupação pedagógica, didática e educacional jamais teremos um acordo ortográfico. Então a meu ver essa unidade ortográfica só se obterá se nós chegamos a uma mudança da filosofia que deve presidir um Acordo Ortográfico para toda a Lusofonia.
Comentário de António Gil: Um apontamento: No italiano a realidade é que não utilizam quase acentos. [Comentário do Professor Bechara: A não ser nos subtítulos] E o que acontece é que na Itália a unidade linguística era relativamente mínima no princípio da existência do estado italiano e não obstante agora na realidade é que o italiano se expandiu totalmente, pode dizer-se que é a única língua da nação e os dialetos estão em recessão total. Portanto...
Resposta de Evanildo Bechara: É. Um linguista italiano dizia que antes do boom da televisão quando quatro ou cinco italianos se juntavam pelo menos três falavam dialetalmente, depois de 1960 essa estatística mudou consideravelmente. Porque nós temos é que fazer frente a que os nossos locutores tanto de rádio como de televisão que não sejam escolhidos pela sua beleza física, mas que sejam promotores da boa pronúncia naquela região em que eles estão falando. Como antigamente os locutores no Rio de Janeiro passavam por um curso de locução, de prosódia, de ortoépia, para que pudessem agir como um elemento difusor da cultura, da língua naquela região.
Pergunta 2 (uma pessoa do público): Só uma pergunta, no caso do Brasil, por exemplo, qual seria a boa pronúncia do português do Brasil, seria a do Sul, a do Rio de Janeiro, a do Pará, a do Amazonas, a de Pernambuco, a da Paraíba? Será que esse conceito de boa pronúncia no Brasil é um conceito político... muitas vezes...
Resposta de Evanildo Bechara: Não, pode haver até uma influência política mas eu responderia com uma frase de um linguista do XIX, um dinamarquês, Otto Jespersen, que dizia: «Cada pessoa culta é um clássico na sua língua» seja ele falante de Londres, seja ele falante de Liverpool, etc. Então nós nunca teremos a boa pronúncia, a boa pronúncia é a pronúncia de cada região. Qual é a boa pronúncia de Portugal? Se ele for lisboeta será a de Lisboa, se ele for de Coimbra será a coimbrã, se ele for carioca será a pronúncia carioca, se ele for paulista será a pronúncia paulista. Quer dizer, não existe a boa pronúncia e isso é uma, é um fantasma que dominava a filosofia dos estudos linguísticos quando se via a língua como um produto natural que nascia, crescia e evoluia independente da vontade do homem. E hoje não, hoje a língua é vista como um produto social, não é? O Sapir diz que nós só falamos porque nascemos no regaço de uma sociedade. Então isso significa que cada região é a sua pronúncia, é o conceito de norma. O que é norma? Antigamente se imaginava “norma” como uma... alguma coisa unitária e uniforme. Hoje norma é o que é normal em cada região, a norma é o que é normal, fixada por uma tradição. De modo que, antigamente por exemplo, no Brasil havia essa ideia de que a melhor pronúncia era a do Pará porque no Pará nós tivemos uma maior influência portuguesa. E isso não existe. Não existe na França, qual é a melhor pronúncia francesa? Não existe. Não, é a pronúncia de cada região, já que a língua é um fenômeno exclusivamente social, histórico-social.
Malaca Casteleiro: Houve em 1986 uma tal reação em Portugal [...] que era impossível.
Evanildo Bechara: É o que eu digo, é a mudança da filosofia que preside à unificação ortográfica. Eu não proponho a abolição dos acentos. O que eu proponho é uma racionalização dos acentos onde tenham uma influência só de sílaba tônica, não de timbre, se aberta ou fechada, como faz por exemplo o espanhol. O espanhol teve mais sorte do que nós porque o espanhol só trabalha com cinco vogais. Eles não têm essa oposição /e/ /ê/ como nós temos, /o/ /ô/, porque eles ditongam as vogais breves. Mas de qualquer maneira nós temos que mudar a filosofia do emprego dos acentos. Se nós chegamos a uma filosofia de tal maneira que o acento marque a sílaba tônica, seja de timbre aberto ou fechado, mas marque a sílaba tônica e não generalizar o acento para todos os casos, nós chegaremos a isso. Numa página de Machado de Assis de 1896 ou 1900, se nós contarmos o emprego dos acentos, nós temos aproximadamente quatro ou cinco palavras acentuadas. Se verificarmos a mesma página num texto impresso depois das reformas ortográficas, aqueles quatro ou cinco acentos são duplicados ou triplicados. Essa é a presença do acento num texto moderno, de modo que o que o que nós devemos fazer é chegarmos a um denominador comum. Há um trabalho de um professor publicado num órgão da imprensa lisboeta onde ele pegou o vocabulário fundamental, são duas mil e tantas palavras. E ele verificou que a coincidência de acentuação entre Brasil e Portugal chega a 90%, quer para o emprego do acento agudo, quer para o acento circunflexo. De modo que a mudança de filosofia é procurar uma racionalização para esses 10% que contrariam a pronúncia, o uso do acento agudo ou do acento circunflexo entre Brasil e Portugal e o resto da Lusofonia. Quer dizer, o nosso problema de acentuação está nesses 10% que mostram uma divergência entre o emprego do acento. Nós teríamos que partir de aí, qual é a solução eu não sei, porque eu não estudei o problema, mas somos suficientemente, não digo inteligentes mas preparados, para chegarmos à solução desses 10%, porque os 90% já foram resolvidos por essa tradição ortográfica. De modo que por isso é que eu acho que o Brasil não devia entrar logo com o Acordo fixado. Por que? Porque se nós estudarmos mais a filosofia da ortografia nós poderemos chegar de aqui a um ano, dois anos, a um sistema que atendesse a todas as componentes da Lusofonia.
José Luís Rodrigues: Bom, então se não houver mais perguntas, tendo em conta já que é uma hora um pouco avançada, encerramos o ato. Mas quero-o fazer, agradecendo muitíssimo a presença dos quatro oradores tanto do colega de tantas lutas passadas, o Professor Martinho Montero Santalha, quase coetâneo meu, como da amiga, minha antiga professora que hoje é colega e amiga, Professora Maria do Carmo Henriques, como especialmente aos nossos convidados e representantes das academias e das universidades de Portugal e do Brasil, que estou certo voltarão muitas vezes mais a esta universidade porque esta universidade tem necessidade de escutar sempre a sua palavra sábia. E estou seguro disso. Muito obrigado a todos.
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[debate desde 1 h. 27 min. 40 seg. até o final]



A raiz da publicação deste dicionário tive a oportunidade de coincidir com o professor Malaca em vários encontros, nomeadamente na Universidade da Utah, por umas provas que se celebravam ali; estivemos nos Açores falando precisamente deste dicionário. O melhor que posso dizer do professor Malaca é que é um grande amigo da Galiza, é um combatente, resistente e defensor da unidade da língua portuguesa, em Lisboa. Tenho notícias de que até em Lisboa querem dividir a língua portuguesa por isso de que, pelos vistos, há muitíssimas divergências, e aqui o professor Malaca está a ter um posicionamento muito claro de defesa da unidade dentro da diversidade, pelo qual a minha admiração por ele tem que ser mais salientável.




Por outro lado, ainda do ponto de vista ortoépico, nós transcrevemos a pronúncia lisboeta, fundamentalmente, das unidades lexicais, portanto, na entrada do dicionário nós temos uma palavra e entrada, unidade lexical e entrada e depois logo imediatamente a seguir damos a transcrição fonética, segundo o alfabeto fonético internacional, da pronúncia da palavra, mas segundo a variante lisboeta. Bom, também isto foi discutido e é discutível porque não é igual a pronúncia de uma palavra como /leite/, eu digo /leite/ que é mais a pronúncia do centro, de Coimbra, /leite/, um lisboeta diz /lêite/, não é?


Nesse sentido Machado de Assis, que foi o primeiro presidente desde a sua inauguração até à data de sua morte, em 1908, imaginava que a nossa Academia deveria ser uma academia de Letras, portanto, de literatos.
Durante o seu trajeto a academia teve notáveis filólogos, mas que trabalhavam filologicamente fora da academia, como aconteceu em primeiro lugar com o nosso Aurélio Buarque de Holanda, conhecido dicionarista, mas que fez o seu dicionário fora da academia. O professor Antônio Houaiss, filólogo de primeira grandeza, lexicógrafo, mas que também fez o seu dicionário fora da academia apesar de na academia ter trabalhado durante sete anos, mas a academia à época não tinha o suporte financeiro para levar avante o seu dicionário e por isso, graças ao apoio político, ele conseguiu fundar o instituto Antônio Houaiss através do qual saiu o seu dicionário, conhecido dentro e fora do Brasil. E o professor Celso Cunha quem também é excelente filólogo, autor de uma gramática muito divulgada dentro e fora do Brasil, primeiro sozinho mas depois acompanhado do ilustre, saudoso, mestre português Lindley Cintra. De modo que a academia não se apresentava como uma academia também de língua, como é por exemplo o caso da Espanha, que é uma Academia de Língua, com uma seção muito numerosa e muito competente de filólogos espanhóis.
Mas curiosamente os fundadores da academia tinham uma ideia muito segura do que vinha a ser a língua portuguesa. Eles achavam -e já os autores românticos trabalhavam nesse sentido embora não usassem essa expressão que ficou célebre na Linguística histórica, da
O primeiro artigo do Estatuto reza o seguinte: «Compete à Academia Brasileira de Letras o cultivo da língua e da literatura nacional». Examinemos que os fundadores não usaram o que seria possível num outro sentido: o cultivo da língua e da literatura nacionais, usando o adjetivo no plural que abarcaria tanto o conceito de língua como o conceito de literatura. Mas eles não fizeram assim não por uma possibilidade de concordância nominal que a língua permite, mas pela expressão de um desejo muito firme: a língua é uniforme, a língua é patrimônio comum ao Brasil e a Portugal. Agora o que cabe especificamente, particularmente à cultura brasileira, é a literatura nacional. Então este primeiro artigo do Estatuto reflete bem o que os nossos fundadores imaginavam do que vinha a ser a língua. A língua é um patrimônio comum à época, às duas nações, já que os falantes de português da África estavam incorporados politicamente a Portugal. Então os nossos fundadores tinham uma ideia muito clara de que a língua era comum a Portugal e ao Brasil. Agora a literatura, essa sim, seria expressão da nacionalidade brasileira.
Este critério de observação e esta opinião, não fica somente na concordância do adjetivo nacional com a literatura; fica também expressa no desejo do trabalho da Academia. Sabendo que a língua era comum a Portugal e ao Brasil, os nossos fundadores imaginavam que o trabalho da confecção de um dicionário da língua seria um trabalho para portugueses com a colaboração, naturalmente, dos brasileiros, mas que só cabia aos brasileiros um dicionário de brasileirismos, de modo que no regimento da Academia, no primeiro regimento da Academia, estava lá como atividade da Academia a publicação de um dicionário de brasileirismos e de um dicionário de autores brasileiros, porque não havia ainda compendiados em forma de dicionário os autores, os diversos autores brasileiros, desde o início da literatura brasileira até à época da fundação da Academia Brasileira de Letras.
Naturalmente, em vista ainda dos primeiros passos de pródromos do que hoje nós chamamos Geografia Linguística, os nossos fundadores não tinham assim uma ideia como hoje nós temos da complexidade de fixar no território brasileiro aquilo que é especificamente do Brasil e que poderia receber o nome de «brasileirismos». O nosso querido e saudoso mestre Celso Cunha tem inclusive um trabalho intitulado «Que é brasileirismo?» e ao final deste trabalho fica uma ideia muito nebulosa do que compete realmente tachar de brasileirismo, uma expressão, um giro sintático, uma construção lexical, do que vem a ser realmente «brasileirismo». De modo que a Academia se empenhou desde a sua fundação no trabalho de se fazer o dicionário de brasileirismos.
Mas estamos ainda muito longe de uma distribuição, de um conhecimento mais atento e vigilante, e como esses trabalhos são publicados com um discurso de tempo muito longo, fica difícil quando nós pegamos à obra publicada sabemos se esta obra reflete atualmente o que existe como particularidades linguísticas nas regiões estudadas. Mas mesmo assim esse trabalho presta um relevante serviço. Entretanto não temos ainda cobertas todas as regiões do Brasil. Temos apenas esses atlas já referidos e atlas parciais de Juiz de Fora, que é uma pequena região de um grande estado que é Minas Gerais. Temos também um atlas parcial do Rio de Janeiro. A própria filha do professor Celso Cunha tem um trabalho sobre o levantamento lexical de certos termos usados por pescadores na região do que nós chamamos lá a região dos lagos. Mas ainda falta muito para o trabalho de fazermos no Brasil, metodológica e cientificamente, um trabalho sobre brasileirismos. Mesmo porque a contrapartida portuguesa também não está hoje ainda totalmente estudada de modo que o trabalho, a confeção contrastiva, não se pode fazer. Os nossos fundadores, e gerações subsequentes, nesses cento e dez anos de vida da Academia acabaram deixando de lado essa ideia da confeção de um dicionário de brasileirismos.
A Academia poder marchar no aspecto linguístico, já que não é um órgão oficial, a Academia Brasileira de Letras não tem nenhum compromisso com o estado brasileiro, não recebe subvenção nem federal nem estadual nem municipal. Ela vive dos seus recursos próprios de alguns prédios que foram doados por um livreiro português chamado Francisco Alves, que chegou ao Brasil pobre e faleceu muito rico, e não tendo herdeiros acabou doando os seus bens à Academia Brasileira de Letras. Isso foi por volta de 1922, o que fez com que a Academia pudesse ter recursos próprios para começar a coleção Pedro Calmon, depois passar à coleção Austregésilo de Athayde. E agora com recursos mais largos em virtude de um prédio que a Academia conseguiu, uma subvenção da Caixa Econômica que durante vinte anos explorou esse prédio, e a partir do ano 2000, toda a soma dos alugueres está entregue à Academia para exercer a sua atividade. Foi por isso que a partir do ano 2000 a Academia se abriu para a sociedade brasileira. A Academia começou a publicar uma série de trabalhos, começou a desenvolver uns prêmios que distribui anualmente, os de poesia, de romance, de literatura infantil de língua portuguesa. Por sinal, o primeiro prêmio que a academia concedeu de língua portuguesa foi ao professor Said Ali, que em 1921 tinha publicado o primeiro volume da sua Gramática Histórica, que sob a influência de Ferdinand de Saussure não chamou Gramática Histórica, mas chamou Gramática do Português Histórico, dentro daquela lição importantíssima do nosso grande e genial linguista suíço, Ferdinand de Saussure, segundo a qual uma descrição como é a descrição histórica num compêndio gramatical, só pode ser feita sincronicamente. De modo que o Said Ali não chamou à primeira edição do seu livro Gramática Histórica mas Gramática do Português Histórico, fazendo um estudo contrastivo entre o português antigo e o português moderno. Essa novidade de haver uma gramática histórica sem Latim foi suficiente para que o livro não tivesse sucesso dentro da escola, porque não se compreenderia uma gramática histórica que não começasse com o Latim. E há gramáticas históricas que até começam com a origem da linguagem! O nosso professor Said Ali, que estava dentro das ideias de Ferdinand de Saussure (Ferdinand de Saussure como sabemos faleceu em 1913, a publicação do seu curso de linguística foi em 1906) e o Said Ali, num trabalho de 1909 já fazia referência às dicotomias Saussurianas espelhadas no seu Curso de Linguística Geral.


































