Higino Martins: "Em termos míticos, Galiza ainda é a Bela Adormecida do Bosque. Mas já vai chegando o momento de acordar"

Professor Dr. Higino Martins Esteves

Web do Congresso Internacional "Os Celtas da Europa Atlântica"
publica entrevista ao professor Higino Martins, académico da AGLP

IGEC - O professor da Faculade de Historia y Letras da Universidade de El Salvador de Buenos Aires, Higinio Martins, aborda a influência céltica na antiga província romana da Baetica, un lugar que, até agora, nom se identificaba com o celtismo. O vindouro 15 de abril, e sob o título "As Célticas Hespéridas", aprofundará sobre esta questão no III Congresso Internacional sobre Cultura Celta.

O teu relatório atinge as Célticas Hespéricas. O que tem hoje de celta a Andaluzia ocidental?

A Céltica Bética é do passado. Felizmente a miscigenação das culturas e dos sangues prossegue a enriquecer-nos. Dito isto, algo há que dura, através da linguagem. Como pode ser? As línguas são a psique das sociedades, com consciência (dicionário e gramática) e um vasto inconsciente (conceito revolucionário, insinuado em Chomsky e Dumézil). Para imaginá-lo, chega ver que a sinonímia é estrutural, não acumulativa, que o adagiário o nota fácil. Mas há muito mais, há estruturas míticas ínsitas nas línguas que nos condicionam: nas indo-europeias, o pendor a dividir tudo em três partes, o valor emblemático das cores, números, pontos cardeais, etc.

As línguas românicas da península são decerto latinas, mas fundamente mudadas pelo substrato céltico, que é da mesma família indo-europeia. O conteúdo desse substrato é duma magnitude ainda desconhecida, mas que vai surgindo. É um fundo misterioso com fascínio suficiente para atrair a curiosidade. Quanto à Bética, chegue reter o facto de Bética, Córdova, Huelva, Sevilha serem palavras ora transparentes na filiação e no significado.
 
Por que sempre se creu o tópico da Andaluzia púnica, romana e moura? Por que não se pensava na céltica?

Por ignorância, não culpável antes do nascimento da linguística histórica. Ora, no séc. XIX o atraso dos estudos peninsulares fez-se escandaloso. É que interferiam na construção do estado nacional espanhol. Aliás, no caso dos andaluzes, a defesa da identidade também extraviou o caminho. Ali Oriente era óbvio, o fácil. No vazio não tinham muitas alternativas.
 
Que importância tem na toponímia ibérica o "I móbil"?

O chamado "I móbil" foi uma incógnita da que se passava. Mesmo Coromines não parou aí, bem que focasse o fenómeno.

É importante em si, pelo que revela na interpretação das palavras onde aparece, mas sobretudo pela reconstrução do céltico antigo, até agora monopolizada pelo protogaélico.

Devo aclarar que por céltico (coincido com a Teoria da Continuidade Paleolítica) deve entender-se o conjunto do indo-europeu ocidental desde a antiguidade mais remota. Dele desprenderam-se o germânico e o itálico, em datas diversas. Os germanos através da indoeuropeização dos povos sami na Dinamarca e Escânia, e os itálicos quando o próprio tronco transalpino do céltico/indo-europeu ocidental perdeu o fonema P, nos arredores do começo da Idade do Ferro.

Um artigo ou demonstrativo fraco em data tão remota surpreende evidentemente, mas é coerente com fenómenos similares de todas as épocas e famílias linguísticas.

Consciencia do pasado
 
O que persiste de céltico na chamada Lusitânia?

Acho que ficou aclarado ao falar na celticidade andaluza. Com a diferença de que a influência oriental foi menor do que na Bética. Também é diferente a consciência dessa herança. Os portugueses (não todos lusitanos e há lusitanos na Estremadura espanhola) sempre tiveram consciência desse passado, sobretudo no século XIX. De qualquer maneira, esse legado vivo é o campo de pesquisa que se nos oferece agora, um campo de maravilhas imenso.
 
Qual a tese do seu livro As Tribos Calaicas?

O intuito do livro foi abrir uma janela a um passado do que pouco se sabia. Os dados para desvendá-lo estavam, mas todo o mundo  dizia que o rei andava bem vestido, quando na verdade caminhava nu. Mérito não houve. Simplesmente curiosidade e aplicar os recursos da linguística histórica das línguas célticas, já elaborada por outros além das fronteiras. Excepto Tovar, algo, e um pouco mais Coromines, que era o que se adiantara aí?

Os quatro autores antigos que falam na Callaicia brindaram-nos um cúmulo de nomes peregrinos, de todo obscuros, e a toponímia, milheiros de nomes de formoso som, também misteriosos. Todo isso estava ao dispor de qualquer licenciado em filologia românica que se debruçasse  nas obras de Zeuss, Pedersen, Pokorny, Stokes, etc.

O quadro a emergir foi pasmoso. Parece-se com os mapas que acompanham as obras-primas da fantasia heroica. Não só ao desvender cada nome de tribo, deliciosamente regozijantes, também ao recobrar assombrosamente amplos segmentos da épica e da religião célticas já conhecidas pela tradição irlandesa, mas com um grau de pormenor superior ao que apresenta aquela tradição ininterrupta. Sei que isto soa incrível, mas pouco a pouco vão-se produzindo as leituras deste meu longo livro e a estranheza começa a minguar.

Os kallaikoi
 
Qual a importância dos kallaikoi na Hispânia pré-romana?

Fala-se muito da Galiza antiga como fonte e foco da cultura céltica. Não entro nisso; a minha especialidade é só linguística. Ora, os dados da épica e da religião célticas apanhados na toponímia galega, como disse, são tão pasmosos em amplidão e detalhes, superiores aos que brindam os códices irlandeses, que agora já não podemos enrubescer quando se escuita falar na chegada dos milésios à Irlanda, procedentes do ângulo noroeste da Hespéria. Certo que Breogan está mal pronunciado (o nome gaélico hoje soa brógan), e que na antiguidade o nome soava Brígonos, forma que nós deveríamos resgatar. Mas, mutatis mutandis, já não há rubor que valha. Temos uma história maravilhosa entre os povos do mundo.
 
Que significado tem o rio Sil, no que também fala?

O Sil tem um nome também pasmoso. Vem de *(RENOS) SILI “(rio) da Semente”. Aí “semente” é a metáfora que ainda conservam as formas homólogas das línguas neocélticas: “linhagem”. O Rio da Linhagem nesse nome testemunhava a crença dos nossos avoengos de esse rio vertebrar a Terra, a Kallaikia. Que abrangia três partes, as que no tempo romano tinham os nomes de lucense, bracarense e asturicense. Em céltico foram os OINAIKOI (assembleias ou foros) ÁRTABROS, GROWIOS e ASTURIKOS. Ártabros é “do norte, do lado da Ursa, estrela do norte” (ARTA “ursa”), Growios é “da (terra) quente, do sul”, Asturikos ou Austurikos “do leste, do oriente ou levante”.

O Sil nasce entre as Astúrias transmontana e augustana, nos montes que separam a Astúrias moderna e Leão. Ao chegar a Nemetóbriga (*NEMETÓBRIXS “vila santa”), o centro da Kallaikia, onde se juntavam os limites das três partes, nos arredores da Póvoa de Trives, passava a ser a fronteira de lucenses e bracarenses, no segmento que na Idade Média conservava, reciclado cristianamente, o nome de Ribeira Sagrada ou Sacra. Em suma, o Sil, o rio da Semente, era o rio da Linhagem, da Nação.
 
Que fica hoje na Galiza atual dos kallaikoi?

Como disse da Bética e da Lusitânia, fica a língua que falamos, vertiginosamente cheia de conteúdos ainda misteriosos. Com o acréscimo da posição central que lá no passado tivemos. Quando deixemos o medo à obscuridão, libertados, veremos um horizonte que hoje os fantasmas, as sombras, não nos deixam enxergar. Sei que soa obscuro, mas é que a linguagem alusiva é ainda precisa neste caso. Para dizê-lo a termos míticos, Galiza ainda é a Bela Adormecida do Bosque. Mas já vai chegando o momento de acordar. Sejamos os príncipes a beijá-la.

Higinio Martins nasceu em Buenos Aires en 1940 e é filho de galegos do Baixo Minho. É avogado e professor titular na Universidade de El Salvador de Buenos Aires. Também é professor de galego-português do coletivo galego de Buenos Aires.

Fonte original:

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