MARIA ROSÁRIO FERNANDES VELHO

Laracha, (Galiza) 1965

Nascida a 21 ou 22 de julho de 1965, na aldeia de Golmar, Laracha, na chamada Casa Pinhám, uma taberna e padaria, casa de comidas e fonda, sendo a sexta mulher consecutiva que nasce na casa construída polos meus avôs no fim da guerra civil. Nunca nascem homens nesta casa, afirmou meu avô, assim que a partir de agora a parir a outro lado. Logo foi meu primo Suso, quem mora hoje nessa casa e leva a padaria tantos anos depois, que nasceu na casa dos outros avôs, aonde foi parir a minha tia Marisa por mandado paterno.

Tão-pouco está clara a data do meu nascimento; quando pergunto por ela nas reuniões familiares está garantida a controvérsia. O que sim é claro é que foi ao outro dia da Santa Margarida de Montemaior, uma importante romaria da zona.

Fui para Ordes com um ano de idade, para a casa nova feita polos meus pais, perto da dos meus avôs. Agora já sou da casa de Golão, uma família labrega da parte rural de Ordes, em que os negócios de compra-venda de gado foram iniciados pola minha bisavó Manuela Golão, quem ainda hoje dá nome a toda a família, maiormente bezerreiros de Ordes que compram o gado por toda a comarca.

Em Ordes estudei no atual colégio Castelão, inaugurado por um grupo de rapazes e raparigas provenientes das escolas rurais das aldeias e, como no meu caso, da escola unitária da vila. Ali vivi uma escola segregada por sexos e cheia de discriminações por ser da aldeia, por ser pobre, por ser nena, por falar galego e tenho que dizer que as minhas notas que ainda conservo eram acordes com a minha condição social: baixas, mesmo muito baixas.

Lembro os verãos com a minha tia-avó Aurora, americana triunfante, na alameda de Ordes, escutando os seus relatos portenhos, imaginando as Américas longínquas; e com a minha avó Francisca em Guitiriz tomando as águas. Já de moça os encontros familiares em Bergantinhos, as verbenas e as festas da Nossa Senhora de Lurdes em Ordes, que é a nossa padroeira arrebatada polo franquismo que sofrera a destruição da sua capela medieval, cousa que afastou da Igreja de por vida ao meu avó da casa do Picho, xastres todos na ordenense rua do Recreio.

Acabados os estudos de EGB, como estudante medíocre, decidi estudar numa academia de cabeleiraria na Corunha, aproveitando o Castromil que passava várias vezes por dia pola minha vila. Mas aconteceu que alguém tomou a decisão de incorporar os estudos de secundário em Ordes e oferecer a oportunidade de estudar BUP perto da casa, mais barato que andar indo e vindo à Corunha. Assim foi que avisaram os filhos para se inscreverem para estudar no antigo cárcere da vila, escola agora, e contrataram alguns estudantes universitários e licenciados do lugar para ministrarem as aulas das matérias de que se sentissem capazes. Isso sim, os testes finais anuais seriam realizados polo Instituto Gelmires de Compostela. E aí comecei os meus estudos numas salas de aula que antes eram celas numa cadeia para presos que conservaram as antigas baratas e demais insetos que moravam no prédio. Nesse espaço tive as primeiras aulas de galego com aquele

manual de Dom Ricardo azul e branco, que foi o mais prezado livro de texto da minha vida.

E foi aí quando comecei a ter boas qualificações e a pensar que podia prolongar os meus estudos, porque eram tribunais externos quem nos examinavam, já que em Ordes nessa altura filhos de pobres nunca tiravam sobresaliente.

Logo nasce o atual liceu e lá vamos para o pensamento livre e a liberdade como povo. Professorado novo com ideais galeguistas, dom Ramom Varela Punhal, professor de filosofia, autor de “Galiza, um povo, uma língua”, lusista. Consigo a subscrição ao “A Nosa Terra” e começamos muitos a debater sobre o país e a língua. Lembro os debates imensos nas páginas do semanário que continuavam nos corredores do liceu e que procuravam os argumentos mais engenhosos para ganhar a batalha dialética. Lembro a revista escolar “Os Foucelhas”, retirada polo centro escolar ou a reclamação da liberdade de expressão com protestos e greves estudantis. Aí foi a minha estreia no debate, no protesto organizado, leituras dos nossos clássicos, recitados de poesia rebelde, boicote ao espanholismo… e o propósito de estudar Filologia Galego-Portuguesa em Compostela.

Quando cheguei a Compostela, centrei a minha vida nos estudos, mas sempre me acompanhei dos estudantes reintegracionistas ali e nas minhas estadias em Ordes. Foi assim como no último ano do meu curso vi como nascia a ARO, a “Associação Reintegracionista de Ordes”, a iniciativa de um grupo de estudantes de secundário acompanhados polo seu professor reintegracionista Júlio Diéguez. Somei-me a este projeto e fui a sua presidenta durante vários anos em que surgiram publicações como a Revista da ARO em galego internacional, na norma da AGAL, ou até uma revista mensal, “O Mês”, a qual era vendida nos quiosques da vila com muito sucesso com temas de preocupação local, entrevistas, colaborações de fora... chegando a uma média de duzentos exemplares vendidos de cada número, além de números especiais dedicados a questões sociais ou a

autores a quem se lhe dedicavam os dias das Letras Galegas. Lembro que tínhamos ciclos de conferências, consideradas por nós como aulas de formação muito importantes, nuns anos em que as publicações eram em papel escritos com a máquina de escrever e depois, já com os primeiros computadores que conseguimos ter. Foram anos muito ilusionantes, apesar da pressão que a Guarda Civil fazia para que não pusessem publicidade para ajudar-nos a financiar as revistas. A moral era alta, e também tínhamos tempo para organizar atos lúdico-culturais de muitos tipos. Quiçá dos que lembramos com mais carinho são as representações poético-musicais que fazia o grupo poético Ronseltz, com quem chegamos a ter uma boa amizade. Eram muitos os encontros que tínhamos na altura com as diversas associações reintegracionistas de base da Galiza, onde intercambiávamos experiências, publicações e outros elementos em distintos convívios. Se alguém quisesse conhecer mais este aspecto do primeiro reintegracionismo de base, de como funcionavam estes pioneiros do ativismo reintegracionista podem ler o artigo sobre este tema que tenho publicado nas ATAS do II

Congresso Internacional da AGAL.

O meu primeiro destino como docente foi o Instituto Carvalho Calero de Ferrol, no bairro de Carança, um centro educativo novinho do trinque, com o melhor nome possível, embora fosse com duplo ele, e com um alunado e umas famílias maravilhosas, muitos deles ligados à associação cultural “Artábria”, que nasceu das reuniões que tínhamos na nossa casa em Fene. A nossa ilusão era criar o máximo número de projetos de divulgação da única maneira de normalizar a nossa língua verdadeiramente.

No Carvalho Calero, lembro que figemos aquela viagem a Bruxelas de que fala tanto o académico José Manuel Barbosa. A presença do eurodeputado José Posada serviu para usar o galego nas instituições europeias por primeira vez, e que hoje em dia já ninguém questiona. Apesar das reclamações interessadas politicamente por fazer também o galego crioulo da administração galega língua de uso na UE.

Como professora de galego no Carvalho Calero fui denunciada por ser reintegracionista e recomendar o Scórpio, por escrever o nome correto de Dom Ricardo como ele mesmo teria querido nas programações e documentos escolares oficiais, por auspiciar publicações escolares livres, por defender nessas revistas a insubmissão à “mili” espanhola e mesmo por apologia do terrorismo. O mais incrível é que tudo se iniciou com a denúncia entre outras de uma concelheira do BNG em Ferrol. As visitas semanais da inspeção educativa eram insofríveis, chegando a abrir-me um expediente. Mas finalmente a repressão foi remitindo, nomeadamente graças ao sindicalista da CIG Manolo Paço, quem me ajudou-me muito no processo. Contudo o que foi definitivo foi o apoio fulcral das famílias, que se reuniram na escola e figeram queixa do tratamento que eu estava a receber.

Nesses anos funda-se o BNG de Ordes, e formamos parte desse núcleo fundador com a condição de admitir a liberdade normativa. Acabou a ARO e começou a etapa BNG, com a inocente ideia de conseguir respeito para o reintegracionismo. Alguns documentos em norma AGAL foram apresentados, estávamos presentes, mas nunca avançamos além da documentação interna. As dificuldades e boicote discreto da organização foram tais que afinal nunca logramos as nossas pretensões de continuar com o uso de um galego correto nos boletins locais ou na propaganda eleitoral. De facto a grande maioria dos membros da ARO que se filiaram acabaram dando-se de baixa por diversos motivos, sendo o ortográfico o mais relevante.

No entanto produze-se o meu translado para o IES Maruxa Malho de Ordes, centro onde levo vinte e quatro anos a trabalhar com uma vaga de galego. Nestes anos fiz o Mestrado de Género da Universidade de Vigo e estudei português na Escola de Línguas de Compostela até que a Lei Valentim Paz Andrade nos permitiu incorporar o ensino do português como segunda língua na escola há nove anos. Começamos com uma turma de cinco alunos e hoje completamos turmas de vinte e tal estudantes em todos os níveis. Mesmo houve anos em que tive horário completo.

Igualmente logrei a cátedra de galego na última convocatória há alguns anos. Também fui vicepresidenta da AGAL na altura em que Bernardo Penabade foi o seu presidente, pois me apresentei na candidatura que ele encabeçava. Nos anos de docente neste liceu escrevi e publiquei junto a um outro docente, Xesus Sambade, um manual de história da literatura galega do século XX publicado na editorial A Nosa Terra. Por motivos óbvios era impossível publicar este manual num galego correto, mas aproveitei a oportunidade para tentar estabelecer uma linha em favor dos autores reintegracionistas, dando um maior protagonismo aos autores mais relevantes em português galego, e que mesmo estão banidos noutros manuais, como pode ser o caso de Ernesto Guerra da Cal.

Levo participando nestes três últimos anos num novo projeto chamado “Saúde e Terra”, uma associação cívico- política que nasceu com o convencimento de que deve haver liberdade normativa e é declaradamente binormativista em todas as suas intervenções escritas, na página web e em todos os documentos internos e externos. A associação leva com muito orgulho a sua declaração binormativista e aspira a ser intermediadora para avançar para a liberdade normativa, acabar com a discriminação padecida polo reintegracionismo e emprega as duas normas em cartazes, redes sociais, convites, etc, sem nenhuma exceção. Acho que este caminho vai dar fruto, por isso estou na diretiva como tesoureira, e julgo que há futuro para este projeto.

A proposta que me dá a Academia é em si uma honra para mim, independentemente do que se decida, e pola qual sinto-me profundamente grata.

Saúde e Terra!

Em Ordes a 11 de julho de 2025

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ALFREDO J. FERREIRO SALGUEIRO

Corunha, 1969.

Estudou Filologia Hispânica e iniciou-se na Teoria da literatura. É membro da Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega e da Associaçom Galega da Língua.

Tem participado desde 90 em inúmeros recitais de poesia e colaborado em revistas portuguesas, entre elas Anto, Saudade, A Ideia, Eufeme e DiVersos.

Como crítico tem colaborado em publicações periódicas impressas como A Nosa Terra, @narquista (revista dos ateneus libertários galegos), Protexta (suplemento literário de Tempos Novos), Dorna e Grial.

De 2008 a 2014 codirigiu a plataforma de blogues em galego Blogaliza

Desde 2006 é assíduo dos meios eletrónicos, em que se dedica à divulgação da literatura e do pensamento crítico. É colaborador mais ou menos habitual nos jornais Praza Pública, Sermos Galiza e Galicia Confidencial.

A inícios de 2014 fundou a revista digital de artes e letras Palavra comum, dirigida ao âmbito lusófono, que conta com contributos de mais de 200 autor@s de vários continentes.

Foi membro do Grupo Surrealista Galego.

Desde outubro de 2015 é coordenador do Certame Manuel Murguía de Narracións Breves de Arteijo, bem como de vários clubes de leitura municipais e ateliês de escritura.

O seu blogue pessoal foi O levantador de minas entre 2006 e 2023.

É colaborador habitual da Academia Galega da Língua Portuguesa.

 

PRÉMIOS

2011 ~ Prémio ao Melhor Blog Literário da Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega.

2010 ~ Prémio “Rosalía de Castro” de lingua e cultura da Deputación da Coruña, por Blogaliza.org (partilhado com Pedro Silva e Táti Mancebo).

2008 ~ Menção de Honra no Prémio Nacional de Poesia Xosemaría Pérez Parallé (polo livro Metal central)

1994 ~ Prémio Nacional de poesia O Facho.

 

OBRA INDIVIDUAL

  • Teoria das ruínas (Poética Edições, 2019).
  • Versos fatídicos (Edicións Positivas, 2011).
  • Metal central (A Coruña, Espiral Maior, 2009).
  • A cidade engrinaldada, Cadernos de Azertyuiop, nº 7 (A Coruña, 1997).

 

OBRA COLETIVA (excerto)

  • Água Silêncio Sede ~ Homenagem poética a Maria Judite de Carvalho no centenário do seu nascimento (Lisboa: Poética Grupo Editorial, 2021).
  • SORE. Obra colectiva do Grupo Surrealista Galego. Edição das autoras: A Corunha, 2020.
  • O sol é secreto ~ poetas celebram Eugénio de Andrade (Câmara Municipal do Fundão e Casa da Poesia Eugénio de Andrade, 2019).
  • Os Direitos das Crianças – Antologia Poética (2018).
  • Barricadas de estrelas e de luas. Antologia Poética no Centenário da Primeira Grande Guerra, Porto: 2013, Tropelias & Companhia, 13-16.
  • A areia que transforma punhos e conversas, Cadernos de Azertyuiop, nº 1 (A Corunha, 1995). Em colaboração com François Davó.
  • “Visão do médium (Textos egoístas)”, em Sete Poetas (A Coruña, 1995).

 

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Ramom Reimunde, da AGLP, resgata O Bispo Santo, um belo e original produto literário de Álvaro Cunqueiro e Otero Pedrayo

Trata-se do “romance de Gonçalo Árias, santo e herói”, que ajudou os galegos. A sua história foi redigida, em 1944, por “dois grandes autores em um só heterónimo”.

 

AGLP.  22/07/2025

Texto: J. Rodrigues Gomes; Coordenação Linguística: A. Cortiças Leira; Produção: Xico Paradelo.


Ramom Reimunde, membro numerário e um dos fundadores e pioneiros da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), publicou e começou a difundir neste verão uma versão, em português da Galiza, d’O Bispo Santo. É este um original produto literário, assinado por Álvaro Labrada, pseudónimo sob o qual se acolhem Álvaro Cunqueiro e Ramom Otero Pedrayo, duas figuras centrais da narrativa galega do século XX.

Segundo se esclarece nesta recente edição, o texto d’O Bispo Santo foi assinado em maio de 1944 por Álvaro Cunqueiro, com o pseudónimo de Álvaro Labrada. Porém, “Cunqueiro incorporou ao texto original trechos d’A romaria de Xelmírez do também grande escritor Ramom Otero Pedrayo, traduzidos do original galego de 1933”. Esses trechos de Otero são transcritos nesta nova versão em negrito, assinala Reimunde. “Portanto, eis dois grandes autores em um só heterónimo“, conclui. Esta edição está ilustrada com um desenho da capa, além de um texto de contracapa, de Maria Reimunde. Consta de 114 páginas e é uma edição não venal. Relata as andanças de Gonçalo Árias, bispo de Mondonhedo como peregrino a Compostela, a Roma e a Jerusalém. Afirma-se dele que, numa estada no Ermo (Ortigueira) teve “mil sonhos e visões”. E venceu o demónio mais de cem vezes. Satanás tinha o rosto fino e frio de Peláez, o bispo de Compostela”; ou como, ao regressar de Terra Santa, “quis visitar a sua diocese, do Sor ao Eu, desde Cervo até Meira. Não se fartava de ver a terra, de cavalgar os seus caminhos. Quiçá os seus diocesanos o achavam um bocadinho estranho. Não contavam que o toparam predicando aos corvos nas penhas que hoje chamam Sermão dos Corvos?”

 O Bispo Santo trata-se de uma “maravilhosa hagiografia inventada de São Gonçalo, o Santo popular por antonomásia da nossa paróquia natal de São Martinho de Mondonhedo, –de onde a cidade bispal de Vila Maior toma o seu nome–, que celebra a sua festa a finais da Primavera no lugar que chamam O Santo, em uma ermida perto do alto d’A Grela, e ainda outra festa popular teatralizada sobre o falido desembarco normando na praia de Tupide da Ribeira, no porto de Foz, no Verão. As páginas deste livro sobre tão singular Batalha Naval são talvez as mais formosas escritas nunca sobre o mar de Foz”, afirma Ramom Reimunde.

No “Prólogo” d’O Bispo Santo salienta-se por parte de Cunqueiro [Álvaro Labrada] como no livro “conta-se a vida de um bispo dos séculos de ferro”. De um bispo galego que, depois de peregrinar pelos caminhos do mundo e vencer normandos, tendo visto a Deus, morreu tal e como está dito em Juízes, XIII, 22: ‘Os que viram a Deus morrerão’. Conta-se a vida de Gonçalo, dando-lhe o seu lugar à história e à lenda. Não, não é esta uma biografia romanceada; em todo o caso, é o romance de Gonçalo Árias, santo e herói. Deus nos ajudou com ele, aos galegos quando, aterrados, gritávamos o A furore normanorum, libera nos, Domine. As naves normandas ainda hoje afundem diante de São Gonçalo numa vidraça da catedral mindoniense, em um mar vermelho, de um vermelho do “Dies irae”.

“Linguagem limpa que brota como fonte”

Ramom Reimunde Norenha nasceu num 18 de abril de 1949 na paróquia de São Martinho de Mondonhedo, no Concelho de Foz. Na sua formação destacam os estudos na Escola Superior de Engenharia Naval de Madrid, e de Nâutica na Crunha. Atingiu o título de Capitão da Marinha Mercante. Com essa profissão, exerceu em barcos espanhóis e estrangeiros. Posteriormente, completou estudos na Universidade de Santiago de Compostela, tendo-se licenciado em Filologia Hispânica em 1979 e em Galego-Portuguesa em 1982. Tendo trabalhado como docente e investigador no ensino público, em liceus de Viveiro, Lugo e Foz, atingiu a condição de catedrático em 1992. Ramom Reimunde também salienta pela sua atividade de empresário florestal, dirigindo, desde 1989, a empresa Reimunde SAT, que é a editora deste volume O Bispo Santo, de Álvaro Labrada. Resultado dessa experiência empresarial é também O Segredo do Monte, uma história florestal do mato na Galiza.

Ramom Reimunde foi um dos pioneiros da Associaçom Galega da Língua e do Movimento Reintegracionista da Galiza, que procura a restauração da ortografia, morfologia e gramática da língua da Galiza segundo a sua história e a tradição defendida por Castelao e o Galeguismo. Entre a sua produção merecem salientar-se publicações como Cativério de Fingoi. Os anos lugueses (1950-1965) de D. Ricardo Carvalho Calero (2010), um dos estudos da sua especialização em Carvalho Calero. Também Poesia Completa de Leiras Pulpeiro (1983); uma edição de Trebom, de Armando Cotarelo (1984); Bem pode Mondonhedo desde agora (prémio de ensaio Á. Fole em 1998, sobre Leiras). Também escreveu sobre Costumes antigos de Galiza, fez a tradução da banda desenhada de Mafalda (1985), e uma crónica romancística sobre o mar e a pesca do bonito que intitulou A Costeira (2006). Neste último trabalho, resgatou um livro inédito do professor Marcos Loureiro, em que não se sabia se contava uma história, um sonho, um jogo de futebol, uma lenda, um diálogo, uma canção ou um verso “porque era cambiante e sempre inventado, de tema fantástico ou científico”, segundo refere Reimunde. Também tem colaborado na imprensa galega, em especial nos jornais El Progreso e La Voz de Galicia, recolhendo parte da sua produção neste âmbito no volume Com textículos (2010).

A leitura d‘O Bispo Santo, segundo assinala Maria Reimunde “mergulha-nos numa Galiza medieval, mítica e marinheira, numa prosa que respira pedra e erva molhada, traduzido ao galego português com precisão e alma por meu pai Ramom Reimunde, com uma linguagem limpa que brota como fonte”.

 

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AGLP aprova novas académicas correspondentes

Inez Andrade Paes, Humberta Brites Dias Jerónimo Araújo, Maria Rosário Fernandes Velho, Blanca García Fernández-Albalat, Alfredo Ferreiro Salgueiro, José Gorís Cuinha, Noemi Vazquez Nogueiras e Irene Veiga Durán foram eleitos em reunião celebrada na Casa da Língua Comum, em Santiago de Compostela



 AGLP 14/07/2025

Inez Andrade Paes, Humberta Brites Dias Jerónimo Araújo, Maria Rosário Fernandes Velho, Blanca García Fernández-Albalat, Alfredo Ferreiro Salgueiro, José Gorís Cuinha, Noemi Vazquez Nogueiras e Irene Veiga Durán foram eleitos como académicas e académicos correspondentes da Academia Galega da Língua Portuguesa. Assim foi decido na reunião plenária celebrada na Casa da Língua Comum, em Santiago de Compostela, no passado sábado dia 12 de julho. A AGLP enriquece-se assim com a incorporação de oito especialistas, em língua galega e portuguesa, em literatura galega, na defesa linguística, na dinamização social e cultural e nas artes da imagem, bem como em outras disciplinas.

As eleitas foram:

  • Inez Andrade Paes
  • Humberta Brites Dias Jerónimo Araújo
  • Maria Rosário Fernandes Velho
  • Blanca García Fernández-Albalat
  • Alfredo Ferreiro Salgueiro
  • José Gorís Cuinha
  • Noemi Vazquez Nogueiras
  • Irene Veiga Durán

 

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Pesar pela morte de José Luís Fontenla Rodrigues, membro de honra da Academia Galega da Língua Portuguesa

A Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) recebe com enorme pesar e tristeza a comunicação da morte de José Luís Fontenla Rodrigues, Membro de Honra da nossa entidade e uma figura referencial do Movimento Lusófono da Galiza.


 AGLP 30/06/2025

Nascido o 9 de fevereiro de 1944, em Ponte Vedra, ele tinha 81 anos e o seu enterro realizou-se às 11:45 horas de hoje, 30 de junho, no cemitério de Santo Amaro da sua cidade natal. O óbito aconteceu em Oleiros, onde ele morava.

José Luís Fontenla (esquerda) com outros membros da AGLP


José Luís Fontenla Rodrigues era filho de Maria Rosa Rodrigues e José Luís Fontenla Mendes, que fora membro das Mocidades Galeguistas, do Partido Galeguista, do Seminário de Estudos Galegos, de Labor Galega de Ponte Vedra e da editora SEPT.
Fontenla Rodrigues notabilizou-se como ativista político e cultural, advogado, escritor, poeta, jornalista, tendo utilizado diversos pseudónimos como João Padrão, Luís Röiz, António Eirinha e outros.

Entre as suas múltiplas produções, merece especial destaque o ter sido representante das delegações galegas que participaram nas negociações dos Acordos Ortográficos da Língua Portuguesa celebradas no Rio de Janeiro (em maio de 1986, acompanhando com Adela Figueroa PanisseIsaac Alonso Estraviz -quem tinha a delegação de Ernesto Guerra da Cal-) e Lisboa (em outubro de 1990, juntamente com António Gil Hernández).

No âmbito da atividade profissional e cívica durante a ditadura franquista destaca em 1970 a sua implicação a favor da abolição da pena de morte, pela amnistia e os direitos humanos, a título pessoal e em iniciativas coletivas por meio da Ordem dos Advogados.
No terreno político cofundou o Conselho de Forças Políticas Galegas, em reunião realizada no seu escritório de advogado de Ponte Vedra em janeiro de 1976, mantendo relação direta e epistolar com as mais relevantes figuras políticas do âmbito espanhol. Fundou o Partido Galego Social-Democrata, sendo candidato ao Senado espanhol pelo Partido Socialista Galego em 1982. Foi representante da Galiza na Plataforma de Convergência Democrática durante a ditadura franquista, na clandestinidade. Colaborou com o Euskal Sozialista Bitxarrea - Partido Socialista Vasco e o grupo socialista “ex-Reagrupament” de Josep Pallach para criar uma Federação de Partidos Socialistas com o PSOE (H) histórico. Elaborou um projeto de Constituição para a Galiza fazer parte de um possível Estado Confederal Espanhol.
Como advogado, fez as gestões em Madrid para a legalização da Asamblea Nacional-Popular Galega (AN-PG) em março de 1978, antecedente do atual Bloque Nacionalista Galego (BNG).

José Luís Fontenla considerava-se membro da Geração da Lusofonia “que defende a Lingua Portuguesa em toda a parte e como língua nacional e oficial de Galiza, Portugal, Brasil, PALOP, Timor, etc.” e defendeu e trabalhou para conseguir “uma política forte e decidida em prol da segunda língua românica do mundo, umas das mais formosas línguas do planeta, extensa e útil (Castelao) e opulenta e subtil (Pessoa) que falam 240 milhões de pessoas nos cinco continentes, segundo a UNESCO”, segundo ele escrevia em 2005. Também se tem considerado em alguma oportunidade Fontenla Rodrigues como continuador das ideias linguísticas e a conceção do patriotismo da Geração Nós.

José Luís Fontenla Rodrigues foi fundador da Associação Cultural O Galo, em Santiago de Compostela; presidente da Associação de Amigos da Cultura de Ponte Vedra; da Associação para a Defesa Ecológica da Galiza (Adega) e de Amnistia Internacional na Galiza. Foi também membro do Conselho de Redação do Boletim do Ilustre Colégio de Advogados de Ponte Vedra; relator no I Congresso do Direito Galego e Prémio de Ensaio nos Jogos Galaico-Minhotos de Guimarães. Também do Conselho Asessor da revista O Ensino. Entre outros muitos reconhecimentos, o dia 2 de setembro de 2018 recebeu em Chantada o prémio da Fundação Meendinho.

Autorretrato de José Luís Fontenla

José Luís Fontenla cedeu a sua biblioteca e mais a biblioteca do seu pai para a Academia Galega da Língua Portuguesa, e está disponível na Casa da Língua Comum, em Santiago de Compostela. Ele colaborou no Boletim número 10 da AGLP com o artigo “A Lusofonia e os Acordos Ortográficos”. Muitos outros trabalhos seus estão publicados em Nós, revista Galaicoportuguesa de Cultura, Cadernos do Povo e outras publicações das Irmandades da Fala de Galiza e Portugal, de que ele foi presidente.

Também publicou os livros Poemas de Paris e outros poemas; Itaca, tragédia num ato único europeu (teatro); Sememas; Poemas Lusófonos; Poemas para Cynara; Sem Título; Fragmentos sem nome ou Metamorfoses.

A Academia Galega da Língua Portuguesa envia as suas maiores condolências à família e amizades.

Nota de falecimento de José Luís Fontenla

 

Mais informações:

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Pesar pela morte de Evanildo Bechara, eminente gramático e filólogo brasileiro e correspondente da AGLP

Ele defendia que “do ponto de vista linguístico, o galego nunca se separou do português”. Assim o indicou em 2008 quando, como representante da Academia Brasileira de Letras, participou em Compostela no lançamento da Academia Galega da Língua Portuguesa

Fonte: https://oglobo.globo.com/brasil/educacao/dicionaristas-aguardam-decisao-que-acaba-de-ser-atualizada-pelo-filologo-evanildo-bechara-3572905


AGLP. 25/05/205

A Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) recebeu com enorme pesar e tristeza a comunicação da morte no Rio de Janeiro de Evanildo Bechara, aos 97 anos. Este eminente gramático e filólogo brasileiro é referente central e indiscutível no seu campo de estudo, com grande projeção internacional.

Evanildo Cavalcante Bechara, nascido em Recife em 26 de fevereiro de 1928, exerceu como Professor Titular e Emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade Federal Fluminense (UFF), sendo mestre de várias gerações. Foi membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Filologia, e membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Galega da Língua Portuguesa.

Foi também o representante brasileiro no Acordo Ortográfico que está a vigorar para a língua portuguesa. Ele defendia que “do ponto de vista linguístico, o Galego nunca se separou do português” e fazia e faz parte da língua comum. Assim o indicou em 2008 quando, como representante da Academia Brasileira de Letras, participou em Compostela no lançamento da Academia Galega da Língua Portuguesa.

Evanildo Bechara teve relação com a Galiza desde as décadas finais do século XX, e esteve em várias ocasiões em encontros com especialistas que defendiam a língua própria da Galiza como expressão da Língua Comum do Português. Entre essas atividades, Evanildo Bechara participou nas palestras que organizou o grupo promotor da Academia Galega da Língua Portuguesa na Faculdade de Filologia da Universidade de Santiago de Compostela, junto do Professor Malaca Casteleiro da Academia das Ciências de Lisboa, em outubro do ano 2007.

Depois, de novo em Santiago de Compostela, representou a Academia Brasileira de Letras na Sessão Inaugural da AGLP, em 6 de outubro de 2008, como também no Seminário de Lexicologia realizado em 5 de outubro de 2009.

Destarte, o professor apoia, desde a primeira hora, o nascimento da nossa instituição, trazendo o apoio da centenária academia brasileira à mais jovem entre as da língua portuguesa”, segundo se salientava no “Editorial” do número 3 do Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa (BAGLP), editado em 2010 e dedicado na sua homenagem como grande intelectual, mas também homenagem à sua figura humana e como brasileiro universal.

Na sua intervenção pública o 6 de outubro de 2008 na cidade de Santiago de Compostela, no ato de lançamento da AGLP, Bechara afirmou:

...do ponto de vista linguístico, o Galego é uma vertente desta realidade da língua histórica que se chama língua comum, que é o grande guarda-chuva ideal, modalizado pela cultura, que abriga todas as variedades linguísticas de todos os quadrantes geográficos em que essa realidade maior que se chama língua portuguesa é falada e escrita. De modo que do ponto de vista linguístico, o galego nunca se separou do português como uma entidade que pertence a essa realidade histórica que caracteriza uma língua de civilização e de cultura como é o português”.

Esta intervenção sua está recolhida também no número 2 do BAGLP. Naquela altura, Evanildo Bechara referiu-se à AGLP como uma porta aberta para a integração na Língua Comum, segundo recolheu a comunicação social.

Da sua ampla produção científica merece destaque a Moderna Gramática Portuguesa, cuja primeira edição data de 1961, com 37 edições até finais do século XX e que continuou a ser publicada no XXI com novas edições por ele revistas e ampliadas.

Também são da sua autoria outros títulos como Gramática Escolar da Língua Portuguesa (2001), Lições de Português pela Análise Sintática (2004), Gramática Fácil, Minidicionário da Língua Portuguesa, O que muda com o novo Acordo Ortográfico ou A Nova Ortografia.

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A Associação Saúde e Terra reclama diálogo institucional com a AGLP para melhorar a situação da língua da Galiza

Propõe chegar a acordos “no caminho de alargar as liberdades linguísticas e normativas para a sociedade galega”

AGLP. 05.05.2025. Texto: J. Rodrigues Gomes; Coordenação Linguística: Antia Cortiças Leira; Produção: Xico Paradelo.


A Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) quer agradecer a Saúde e Terra, que se apresenta como “a associação das pessoas que querem melhorar Galiza”, a sua proposta de que se dialogue com a nossa instituição para mudar a situação da língua autóctone da Galiza e conseguir uma situação mais favorável para a mesma. Assim o faz numa das suas últimas declarações públicas, difundida em abril, onde insiste na necessidade de diálogo do conjunto do galeguismo cultural e linguístico do país, com um apelo especial ao respeito para a Real Academia Galega, com ensejo do relevo na sua Presidência.

Entendemos que esse diálogo deveria acabar nuns acordos que vaiam no caminho de alargar as liberdades linguísticas e normativas para a sociedade galega, com o fim de lograrmos uma sociedade mais democrática e inclusiva num tema tão sensível a nível pessoal e identitário como é o da língua galega”, afirmam. Põem em destaque a “terrível crise que está a sofrer a nossa língua nacional a nível de uso e prestígio na sociedade galega”, como assim o evidenciam estudos oficiais que promoveram as Administrações Estatal e Autonómica da Galiza. Saúde e Terra assinala que só a união faz a força, e advoga por cumplicidades e apoios mútuos. “Que não se estrague mais uma vez a oportunidade de encontrarmo-nos num caminho comum na defesa do nosso tesouro mais prezado”, conclui.

A doutrina de Castelao

Num trabalho anterior (uma linha com que a AGLP também concorda plenamente), esta associação galega, com ensejo da declaração de 2025 como Ano Castelao por parte do Governo autonómico da Galiza, para honrar a memória do político, intelectual e artista Afonso Daniel Rodríguez Castelao, tinha manifestado (https://saudeeterra.gal/a-xunta-e-o-ano-dedicado-a-castelao/) que “Neste ano Castelao, desde Saúde e Terra também esperamos que não se oculte o Castelao que insistentemente, uma e outra vez, defendia a unidade linguística do galego e o português, desejando, segundo as suas próprias palavras, que se confundissem um com o outro [...] esperamos desde Saúde e Terra que se trabalhe noutra das grandes metas que Castelao queria para a Galiza, uma relação fluída e constante com o resto dos países da Lusofonia. Por isso esperamos que se intensifiquem muito mais as incipientes ligações do governo galego e da sociedade galega com o mundo lusófono tanto a nível cultural como economicamente, algo que mesmo pessoas integradas no nacionalismo galego ou no sistema cultural, nomeadamente o literário, parecem não ter muito claro”.

Saúde e Terra tem-se manifestado na sua página web oficial, a respeito de outros assuntos da atualidade linguística, cultural, económica, ambiental e política da Galiza, com perspetiva nacionalista.

 

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O Parlamento Galego aprova dar um maior reconhecimento a Isaac Alonso Estraviz, promotor da AGLP

O ilustre lexicógrafo e lexicólogo publica um livro de contos, com o apoio da “Xunta de Galicia

 

AGLP. 02.05.2025. Texto: J. Rodrigues Gomes; Coordenação Linguística: Antia Cortiças Leira; Produção: Xico Paradelo.


 

 


O Pleno do Parlamento de Galiza aprovou instar ao Governo Autonómico para “continuar impulsando os vínculos” com a comunidade lusófona através do reconhecimento ao trabalho de pessoas como Isaac Alonso Estraviz. Foi esta uma das resoluções do debate anual sobre política geral aprovadas no Pleno da Câmara Legislativa celebrado o dia 23 de abril, que a instituição difunde na Rede, nesta ligação.

A Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) parabeniza o Parlamento por este acordo, que destaca a personalidade de Alonso Estraviz, um dos promotores da nossa instituição, e também o primeiro vice-presidente, membro da Comissão de Lexicologia e Lexicografia, e do Conselho de Redação, de Administração e Científico do Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa (BAGLP). Estraviz é também um dos máximos referentes do movimento reintegracionista, que busca a confluência da língua autóctone da Galiza com a dos povos da Comunidade de Países da Língua Portuguesa (CPLP) e autor do célebre e emblemático Dicionário Estraviz (disponível para acesso geral em www.estraviz.org): a edição eletrónica deste repositório começou em 2005, no Portal Galego da Língua e completou 20 anos de serviço na Internet para a Galiza e para toda a comunidade lusófona em janeiro deste ano 2025 (ver nesta ligação). A proposta de resolução no Parlamento de Galiza foi apresentada e defendida por Armando Ojea, deputado de Democracia Ourensana, pertencente ao Grupo Mixto. O texto definitivo foi o resultado de uma transação com o maioritário Grupo Popular. Foi aprovado por 66 votos a favor, nenhum em contra e 9 abstenções.

Uma obra monumental

Uma obra monumental como o Dicionário Estraviz, que ultrapassa os 155.000 verbetes e continua a ser acrescentado e atualizado, justificaria esse reconhecimento institucional. Porém, a produção de Estraviz em prol da língua e a cultura galegas começou em 1959 e continua com novas produções na atualidade, quando já entrou na casa dos 90 anos de idade. Ele exerceu, profissionalmente, de professor no ensino não universitário, e depois na Universidade de Vigo, tendo-se doutorado na Faculdade de Filologia da Universidade de Santiago de Compostela.

O Dicionário Estraviz tem como precedentes outros dicionários galegos, também da sua autoria, impressos e publicados em 1983 (na editora Nos, da Corunha), 1986 (na Alhena, de Madrid) e 1996 (sob a chancela da Sotelo Blanco, de Santiago de Compostela).

Além disso, em 1987 publicou Estudos filológicos galego-portugueses; no ano 2000, Os intelectuais galegos e Teixeira de Pascoaes: epistolário, junto com Eloísa Álvarez, docente da Universidade de Coimbra; no 2011, Santos Júnior e os Intelectuais Galegos. Epistolário; no 2014, Os falares dos concelhos de Trasmiras e Qualedro, que tinha sido a sua pesquisa de doutoramento; além de participar em numerosas colaborações em revistas científicas e literárias editadas na Galiza, Portugal e Espanha; e um volume literário publicado em 1973 numa célebre coleção da editora Castrelos, de Vigo. Este volume de contos foi agora reeditado, e acaba de sair do prelo, sob a chancela da Visualq, com o título Contos com reviravolta. São um conjunto de 15 pequenas histórias (“Das Lagoas a Ourense”, “O arado vai fendendo a terra”, “O ferreiro sabido”, “Um novo amencer”, “O marquês sem cuidados”, “A coelha Maripepa”, “Manolinho, o das gravatas”, “Não tínhamos saída”, “Aquelas covas”, “ ‘Ai, os curas, mãe que os pariu!’”, “Viagem a Chaves”, “Quem dera!!!”, “Salmo Ascensional Galego. Santiago de Compostela, Coração da Alma Galega”, “O senhor Lupário” e “Como nasceu a música”). O livro acompanha-se  com ilustrações na capa e páginas interiores de Jocabed Fernández González e um texto introdutório de José Luís Fernández Carnicero. Conta com o apoio da “Xunta de Galicia”, através da “Secretaría Xeral da Lingua”. Estraviz acrescentou alguns relatos novos aos incluídos na edição de há 52 anos.

Em 1986, Isaac Alonso Estraviz foi representante da Galiza nas reuniões para um Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, celebrado no Rio de Janeiro. Entre os diversos reconhecimentos que tem recebido, merece salientar-se também o ter sido designado membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa.

No ano 2013 a editora Através publicou o livro Conversas com Isaac Alonso Estraviz, da autoria do professor Bernardo Penabade, em que se esclarecem os principais aspetos da sua biografia e trajetória.

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Uma nova edição de Ostrácia, de Teresa Moure, numerária da AGLP, reivindica “um estilo galego na Lusofonia”

Para mim Ostrácia é carne viva”, afirmou a académica no lançamento desta versão revisada e “mais galega”. Afirma que neste romance, como noutros trabalhos seus, tenta “recuperar figuras femininas da história que têm sido apagadas das versões oficiais”

AGLP 15/03/2025

Texto: J. Rodrigues Gomes. Coordenação Linguística: Antia Cortiças. Produção: Xico Paradelo.


Teresa Moure, numerária da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), reivindicou que “temos direito a ter um estilo galego na Lusofonia”, no lançamento de uma nova edição do seu romance Ostrácia, em Santiago de Compostela. É mesmo uma nova edição, não uma reimpressão mais: apesar de que a capa é a mesa, acrescentando só o número da nova edição galega, sob a chancela da Através; e a contracapa e a badana da capa também continuam o mesmo (sim mudam, evidentemente, as novas publicações da editora anunciadas na badana da contracapa, atualizando a informação das mesmas). Agora oferece uma nova versão, “mais galega”, após ter revisado o texto Olívia Pena Arijón, professora e doutora em galego-português especializada em estilística e crítica literária, quem partilhou com Moure o ato deste novo lançamento, o 27 de fevereiro, no salão da Casa do Taberneiro de Compostela. Assim, agora Ostrácia é “mais galega do que antes”, sublinhou Olívia Pena, quem disse que sentia como este novo texto é assim em parte também seu. “Uma escritora precisa sempre uma corretora”, frisou Moure, quem se manifestou satisfeita das mudanças, que as duas comentaram e acordaram antes da nova impressão.

O lançamento desta nova edição foi um aliciante diálogo entre Teresa Moure e Olívia Pena. Acontece dez anos depois da primeira edição. E Moure lembrou como, também dez anos antes, tinha publicado outro romance histórico, Herba Moura, que foi acolhido pelo mercado com “um inexplicável sucesso, à custa, em boa medida, de perverter as intenções da autora”. Teresa Moure esclarece que, entre os objetivos desta narrativa, como de outros trabalhos seus, está recuperar figuras femininas da história que têm sido excluídas das versões oficiais.

Interesse da crítica

Enriquece-se assim a história e a trajetória de Ostrácia, um produto literário especial para a sua autora. Ostrácia foi traduzida para espanhol (na editora Tiempo de papel, em 2021); e Moure valeu-se do seu primeiro capítulo “Sobre nós, as aranhas”, para a sua apresentação nas Correntes da Escrita da Póvoa de Varzim em 2019. A crítica galega, e a não galega, evidenciou interesse nesta narrativa; mesmo a lusófona, como se pode ver na recensão que a professora de literatura e crítica brasileira Maria Fernanda Garbero, docente e investigadora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, publicou no número 8 do Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa (pp. 171-176)1, onde põe em diálogo Ostrácia com outras duas obras de Moure: Eu violei o lobo feroz (Através, 2013) e Uma mãe tão punk (Chiado, Lisboa, 2014).

Ostrácia, na edição galega –na espanhola há divergência, por causa da diferença de referentes a respeito da trajetória de Moure, segundo ela própria esclareceu— consta de uma “Nota” inicial, de apenas umas linhas, mas de relevo e interesse para quem decida refastelar-se na sua leitura; a história, em que são centrais as relações entre as personagens de Vladimir I. Lenine e a revolucionária Inessa Armand, consta de quatro partes: “A persuasão”, “A hegemonia”, “A revolução” e “Um mundo novo”. Na continuação inclui um “Posfácio”, de 4 páginas, datado em “Compostela, 2015, primavera a arder”, em que refere dados de relevo do processo de produção do texto, narrado por uma filha de Inessa Armand; e finaliza dando conta de “Referências básicas”, oito publicações editadas entre 1992 e 2015 (esta última data é também a da primeira edição galega de Ostrácia), em que se alicerçou para escrever este livro.

Dum lado a História; doutro a intimidade. Dum lado, as palavras de ordem das ideologias políticas revolucionárias. Doutro, o orgasmo múltiplo e os fetiches do Domínio e a Submissão. Dum lado, as figuras de Lenine, Alexandra Kollontai, Nádia Krupskaia e, sobretudo, Inessa Armand. Doutro, a experiência de escrever sendo mulher e, portanto, interpretando como autora de textos vagamente feministas, reivindicativos mas também florais e românticos. Quando a escritora acha um fio narrativo singular –a vida da revolucionária bolchevique Inessa Armand–, experimenta certas contradições” assinala-se, à partida, na contracapa de Ostrácia, para dar conta ao leitor. Esse espaço, tão de relevo, finaliza pondo em destaque como “Se a militância fosse entrega e as ideologias tiverem que mudar o mundo, então Inessa Armand e a escritora devem entrelaçar-se para contar o nunca contado: que Política e Erótica vão da mão, que tudo na Política, como na cama, se reduz a bailar com o Desejo. Para a política não ser politiquinha e o Desejo não se conformar com desejinhos. Para fazermos habitável a Ostrácia”. Uma Ostrácia que ela define como “esse território para a liberdade e para a dissidência”

Teresa Moure ingressou na AGLP tempo depois de publicar Ostrácia. O seu discurso, “Identidades aracnídeas e verdades incómodas”2, evoca esta narrativa: nele defende como a mentira é um talento ao dispor de todas as pessoas, mas como o “cerne da minha identidade” é que “não posso conformar-me com a mentira”, apesar de que “quem escreve, mente” e “a narração é mentira elevada à condição de arte”, entre outras afirmações que também são de ajuda para entender esta exitosa Ostrácia.


1 Este boletim, como os restantes publicados pela AGLP, está disponível, de acesso livre e de graça, neste mesmo sítio web.

2 O discurso está publicado no número 10 do Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa, nas pp. 243-259; e na continuação, nas pp. 261-264, a resposta que teve do académico Mário Herrero Valeiro. Este boletim, como os restantes publicados pela AGLP, está disponível, de acesso livre e de graça, neste mesmo sítio web.

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