Montero Santalha, fundador da AGLP, já é Filho Predileto de Cerdido, ou como desde um Concelho rural pode sair “um fenómeno de projeção universal”

A vizinhança, família, e pessoas deslocadas de diversos espaços da Galiza, acompanharam a homenagem ao ilustre filólogo, investigador e escritor

 AGLP 28/10/2026


A biografia, trajetória e produções de Martinho Montero Santalha, fundador e primeiro presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), evidencia como desde um concelho rural pode sair “um fenómeno de projeção universal”: assim o manifestou Alberto Rei Paz, Alcalde-Presidente da Câmara Municipal de Cerdido, no ato em que a instituição reconheceu Montero Santalha como Filho Predileto do Concelho. Participaram, além da Corporação Municipal e uma ampla representação da vizinhanza, pessoas deslocadas de diversos espaços da Galiza, representantes dos campos da Academia, da Cultura, do Ensino Universitário e Não Universitário, da Literatura e de outros âmbitos, que acompanharam nesta homenagem ao ilustre filólogo, investigador, escritor e ativista cultural. A AGLP esteve representada por Ângelo Cristóvão e Ramom Reimunde Norenha, também fundadores da instituição, bem como de Paulo Fernandes Miras e Rosário Fernandes Velho. Na muito concorrida sala da Área Recreativa do Castro, na antiga escola, onde se celebrou o ato, perto de Monteiro de Casaldegonce, onde está a casa onde nasceu Montero Santalha em abril de 1947, ele esteve também acompanhado da sua companheira de vida, das irmãs e irmão, sobrinhas e sobrinhos e a sua descendência. O ato principiou com a interpretação do hino do antigo Reino da Galiza, por duas gaiteiras. Na sua intervenção de agradecimento, Montero Santalha afirmou que “para mim esta é uma bonita ocasião para reafirmar com toda a energia a minha condição de filho de Cerdido, filho fiel e amoroso que leva com íntimo orgulho a sua origem”.

 

 

Filho Predileto por unanimidade

A homenagem foi apresentado por Maria Amalia Díaz Rodríguez, a Relatora Municipal de Cultura da Câmara Municipal do Concelho de Cerdido, também pintora e poeta. Após as boas vindas do presidente da Câmara Municipal, o secretário da instituição, Ignácio Domínguez Simóns, deu leitura da ata em que consta o nomeamento de Montero Santalha como Filho Predileto de Cerdido, por unanimidade da Corporação Municipal, aprovado o dia 29 de abril deste ano.

Alberto Rei Paz salientou a unanimidade deste reconhecimento, afirmando que nasce do respeito e do agarimo da vizinhança. O presidente da Câmara Municipal acrescentou que iniciativas como esta demonstram como “desde um concelho rural pode sair um fenómeno de projeção universal”; bem como “desde uma aldeia pequena, pode influir-se na cultura global”. Referiu-se a José-Martinho Montero Santalha como “uma inspiração geracional” e assinalou que “Cerdido sabe reconhecer a quem o dignifica”.

 

Laudatio do homenageado

O Professor Bernardo Penabade Rei fez na continuação a laudatio do homenageado, com um percurso pela sua formação, desde a sua passagem pela escola de Montojo (Cedeira), e a atividade profissional de Montero Santalha, a quem apresentou, entre outros méritos, como “um dos grandes especialistas mundiais da Literatura Medieval”. Advogou porque tenha um maior protagonismo na comunicação social, em especial nos meios públicos autonómicos; e porque seja reconhecido oficialmente pelas instituições, pelo grande valor nos diferentes campos em que exerceu a sua atividade. Salientou igualmente a sua passagem por universidades da Itália (licenciado em Teologia pela Pontificia Universidade Gregoriana; e em Filosofia pela Universidade São Tomás de Aquino, as duas de Roma), Espanha (licenciado em Filologia Hispânica pela UNED) e Galiza (Doutor em Filologia pela Universidade da Corunha, e professor de Didática da Língua e a Literatura Galega na Universidade de Vigo entre os anos 1994-2017, até ao seu aposentamento), bem como a sua muito relevante produção ensaística (com títulos como Directrices para a reintegración lingüística galego-portuguesa, em 1979; Método prático de língua galego-portuguesa, em 1983; Carvalho Calero e a sua obra, em 1993, estudo ganhador do prémio de investigação Carvalho Calero convocado pela Câmara Municipal de Ferrol; As rimas da poesia trovadoresca galego-portuguesa: catálogo e análise, publicado no ano 2000; O nome da Galiza, no 2005; O texto do testamento de 1214 de Dom Afonso II, rei de Portugal: Edições filológica, crítica e paleográfica, trabalho publicado no ano 2015 pela AGLP; ou Cantigas de Santa Maria (Texto crítico completo), que veio a lume no 2021.  Montero Santalha destacou igualmente pela produção literária, em especial pelo volume de narrativa Oxalá voltassem tempos idos! Memórias de Filipe de Amância, pajem de Dom Merlim, obra ganhadora do certame literário Carvalho Calero, convocado pela Câmara Municipal de Ferrol, e publicada em 1994, que teve reconhecimento da crítica. No campo do jornalismo ele foi ganhador, em 1977, do Prémio Fernández Latorre, convocado pelo jornal La Voz de Galicia, por um artigo no qual defendia o reintegracionismo Galego-Português. Pertenceu ao grupo Os Irmandinhos de Roma, sendo um dos promotores e assinante do famoso Manifesto para a supervivência da cultura galega, no ano 1974; participou na Associaçom Galega da Língua e nas Irmandades da Fala da Galiza e Portugal; presidiu a associação Medúlio; foi diretor da revista Agália e colaborou em numerosas publicações e produções coletivas.

 As visões familiar e vizinal.

Margarita Hermida Montero, sobrinha do homenageado e também professora, num discurso particularmente comovente, evocou a seguir memórias da sua infância e juventude. Isso permitiu conhecer melhor a sua dimensão humana e a dedicação aos estudos que manifestou desde criança. Como representante da numerosa família que o acompanhou no ato, Margarita Hermida realizou uma emotiva lembrança do tio.

Santiago Rodríguez Pérez, vizinho de Cerdido e amizade do homenageado de longa data, qualificou de justiça o reconhecimento como filho predileto e referiu-se a José-Martinho Montero Santalha como “referente intelectual e humano”. Santiago Rodríguez entregou-lhe como presente a Montero Santalha uma coleção de 121 cartas que escreveram para ele pessoas de diversos espaços da Galiza, bem como de Astúrias, Portugal, Brasil, Madrid e mesmo a República Checa, segundo esclareceu. 

 

Máis de 120 cartas para homenagear ao Martinho 

O volume das 121 cartas, sob o título "Palavras para o Martinho", foi uma iniciativa de Bernardo Penabade e Santiago Rodríguez, que fizeram uma convocatória aberta para participar, entre os dias 24 de setembro e 15 de outubro. Participaram pessoas a título individual e representando instituições, como a Cátedra Carvalho Calero da USC, a Associaçom Galega da Língua (AGAL), as Escolas Semente, ou a Mesa pola Normalización Lingüística. A AGLP está representada pelo seu presidente, António Gil Hernández, e outros/as académcos/as como Paulo Fernandes Mirás, Isaac Alonso Estraviz, Ramom Reimunde, José Manuel Barbosa, Ângelo Cristóvão, Xico Paradelo, Irene Veiga, Moncho de Fidalgo e Crisanto Veiguela Martins. Entre quem assinam figuram pessoas que Martinho Montero Santalha casou no tempo que exerceu como sacerdote, até professores que partilharam salas de aula com ele, vizinhos da infância, e uma ampla representação de pessoas da cultura, do âmbito acadêmico e de diversas áreas sociais da Galiza; entre quem assinam contributos estão o presidente da Real Academia Galega, Henrique Monteagudo; e o secretário geral da Língua da "Xunta de Galicia", Valentín García. Foi uma resposta ampla, apesar dos poucos dias da convocatória, com representação de sensibilidades muito diferentes, o que evidencia a grande aceitação e respeito por Martinho Montero Santalha.

 

Poesia e diploma

Depois, José-Maria Monterroso Devesa deu leitura ao poema “Oitava imperfeita para o perfeito amigo (1976-2026)” e Loreto de Castro proferiu afetuosas palavras, antes de uma nova intervenção do Presidente da Câmara Municipal de Cerdido.

Montero Santalha recolheu o diploma e placa, e assinou já como Filho Predileto de Cerdido, no Livro de Honras e Distinções do Concelho de Cerdido.

 Montero Santalha: “Filho de Cerdido, fiel e amoroso”

Na continuação, na sua intervenção, Montero Santalha agradeceu o reconhecimento da Câmara Municipal, e que fosse por unanimidade. Afirmou Montero Santalha: “Ser nomeado filho predileto do concelho de Cerdido é uma honra que me enche de gozo. Creio que nada pode produzir maior satisfação na alma que sentir-se querido polos seus, por aqueles que estão mais cerca da própria história vital e portanto conhecem melhor também as nossas limitações. Pola minha parte, podo afirmar, sem arrogância mas com plena sinceridade, que sempre me sentim filho de Cerdido”.

Sublinhou igualmente Montero Santalha como “para mim esta é uma bonita ocasião para reafirmar com toda a energia a minha condição de filho de Cerdido, filho fiel e amoroso que leva como íntimo orgulho a sua origem. Diz-se que a pátria mais autêntica de uma pessoa é a sua infância, sobretodo se foi uma infância feliz –como é o meu caso. A minha infância transcorreu entre a casa paterna de Casaldegonce e a dos avós maternos em Riazom. E os recordos de aquele tempo que ainda agora emergem de quando em quando na minha memória, são como uma raiola de luz e calor que parecem infundir em mim uma vitalidade renovada, agora que já sinto os sinais da decrepitude natural da ancianidade. Voltar a Cerdido despois de residir algum tempo fora foi sempre para mim como regressar ao paraíso”.

Lembrou Montero Santalha a sua estada de dez anos em Roma “anos que deixarom em mim, como é natural, uma veneração especial pola cidade, uma grande urbe ecuménica que inevitavelmente se mete no coração. Mas esse carinho à «Cidade Eterna» fica na penumbra frente ao gozo do regresso cada vez que voltava a Cerdido. Recordo a sensação de respirar outra vez ar puro, sem a experiência da carbonilha, ou fuligem, que a contaminação da cidade depositava no nariz. Lembro igualmente a experiência da paz do silêncio nocturno, só matizado ocasionalmente polo ugo [ululato] da coruja, frente ao rumor xordo e constante da grande cidade, que não cessava nem sequer nas horas mais profundas da noite”.

Fez menção na sua intervenção, com gratidão, da Corporação Municipal de Cerdido e do seu presidente; de amizades como Bernardo Penabade e Santiago Rodríguez; das pessoas com que partilhou e partilha atividade na AGLP e na Associaçom Galega da Língua (AGAL); citou o poeta latino Ovídio e a Jesus Cristo. Também memorou como o edifício onde se estava a celebrar o ato tinha sido uma iniciativa da emigação, lembrando como de Cerdido tinham partido “milheiros de emigrantes para Argentina, Uruguai, Brasil, Venezuela e, sobre todo, Cuba”, e apelou muito especialmente à solidariedade com esta ilha por causa da difícil situação que está a experimentar.

No final da alocução, Montero Santalha citou “como Castelao imaginava uma Santa Companha de galegos”, e ele tentou fazer o mesmo, uma Santa Companha da vizinhança de Cerdido, citando diversos nomes “tanto dos nativos no concelho como dos que vinherom de fora e acabarom integrando-se na sua povoação”. As suas últimas palavras foram de referência para a família, que contava também com importante representação na homenagem. Montero Santalha finalizou como um “Viva Cerdido!”. As suas palavras comoveram as pessoas presentes, que encerraram a cerimónia com uma calorosa aclamação. Seguiram-se as despedidas entre os participantes e uma sessão fotográfica que guardará a memória deste dia especial. A cerimónia foi encerrada com a interpretação do hino galego, cantado pelas pessoas presentes.

 Valorizações do homenagem e do homenageado

Entre as pessoas presentes na homenagem esteve Ângelo Cristóvão, também fundador da AGLP e, como Martinho Montero Santalha (e juntamente com Isaac Alonso Estraviz) reconhecido como membro da Academia das Ciências de Lisboa no ano 2016. Para Cristóvão, atual tesoureiro da AGLP “O merecido reconhecimento deveria ser uma primeira forma de agradecimento da sociedade pelo seu contributo. Ao intelectual e investigador que situou a Galiza no nível mais alto dos estudos medievais, da literatura da nossa língua comum, que partilhamos com outros 8 países.”

Para Ramón Reimunde Norenha, também fundador da AGLP presente o sábado em Cerdido “foi uma homenagem singela e sobretudo muito merecida por Martinho, quem agradeceu a entrega de diploma e placa com a sua proverbial humildade e claridade de ideias. Particularmente senti-me muito feliz de ter estado presente neste evento, pela amizade perpétua e admiração que professo a Martinho, sem dúvida o linguista mais importante dos reintegracionistas entre os ainda vivos, verdadeiro cérebro gris e o primeiro em desenvolver ideias fundamentais para a nossa língua galego-portuguesa e criar instituições primordiais como a AGAL ou a AGLP. Louvado seja pelos seus méritos e bondade, sem desprezo a outros eminentes académicos e escritores colegas nossos, entre eles Isaac Á. Estraviz, lexicógrafo”.

Para Paulo Fernandes Mirás, académico da AGLP e diretor do seu Boletim “a homenagem foi conduzida com grande sensibilidade e soube destacar as razões que justificavam este reconhecimento público: não apenas a dimensão e a qualidade do trabalho intelectual de Martinho Montero Santalha, mas também as qualidades humanas que o acompanham e a dedicação que consagrou, ao longo de toda a vida, ao estudo e à produção de conhecimento. Foi uma ocasião feliz para reconhecer uma trajetória que merece ser conhecida, valorizada e preservada na memória coletiva”.

Para Rosário Fernandes Velho, também da AGLP, Montero Santalha “é um vulto nacional por ser o inteletual galego que propôs as primeiras Normas para o galego desde uma visão ampla e reintegrada na Lusofonia, co-autor do primeiro Prontuário ortográfico da nossa língua na Galiza, ambos livros fulcrais na formação de inúmeras gerações de reintegracionistas, que nos comprometeu como galeguistas formados e responsáveis pelo futuro da nossa língua. Em definitivo, estamos a falar de um homem que nos serve de exemplo humanamente e intelectualmente; o nosso melhor filólogo vivo, e um dos grandes defensores desde o trabalho e estudo da nossa língua, do galego-português como língua dos nossos reis medievais e que hoje o poder e os seus cúmplices querem converter numa língua serva do castelhano. Martinho, como ficou bem claro na cerimónia do seu reconhecimento como filho predileto do seu concelho natal, é um dos bons e generosos, mas também há que reconhecer que ele nos marcou o único caminho por onde pode ir o galego para garantirmos entre todos a sua sobrevivência, o caminho da Lusofonia, como galego-português ou português galego”.

Entre as pessoas que acompanharam Montero Santalha em Cerdido esteve também Aurora Marco, a mais veterana docente de Língua e Literatura galega viva, desde a década de 1970 (hoje aposentada; antes dela só a precedeu na docência da disciplina Ricardo Carvalho Calero, desde 1965, com quem colaborou muito estreitamente na USC). Aurora Marco ministrou na USC Didática da Língua e a Literatura Galega, a mesma matéria de que se ocupava Montero Santalha na Universidade de Vigo. Ao valorizar a homenagem afirmava Aurora Marco: “Foi um dia mui feliz para as pessoas que admiramos e queremos o amigo Martinho Montero Santalha, nomeado Filho Predileto de Cerdido por unanimidade da sua corporaçom Municipal. Um reconhecimento bem merecido com o que se fixo justiça à trajetória intelectual e pessoal do filósofo, teólogo e filólogo, doutor especializado na poesia travadoresca galego-portuguesa; do professor, investigador, ensaísta, narrador, poeta, cofundador de revistas, de associaçons, que se entregou com paixom à defesa da nossa língua e cultura desde o reintegracionismo. Nesta filosofía lingüística, à que dedicou numerosos trabalhos, foi sempre umha autoridade, um referente e umha fonte de inspiraçom para moitas pessoas, como se puxo de destaque em algumhas intervençons, que louvarom a trajetória profissional, a sua obra ingente e o reconhecemento internacional.  Sem esquecer a sua humanidade. Todas e todos pudemos comprobar que Montero Santalha é umha pessoa muito querida na sua terra de nacença –e fora dela– e, também, que o o ronsel que foi deixando por onde passou, está acugulado de muito carinho”, valorizava Aurora Marco após finalizar a homenagem.

E em palavras de Carlos Quiroga, diretor da Cátedra Institucional Carvalho Calero da USC, a homenagem a Montero Santalha “decorreu num clima bem equilibrado entre o protocolar e o afetivo. Para além das justificativas de rigor, nas que ficou clara a unânime política que deu atenção municipal positiva à proposta, as memórias de infância e os depoimentos de vizinhança colocaram a dose sentimental oportuna que – longe do lacrimogéneo– repartiram sobre o extenso público que o acompanhava uma atmosfera de contentamento. Porque Martinho estava presente. Porque os seus vastos méritos intelectuais e humanos também eram resumidos e ele estava lá para ver. E agradecer. Profeta na terra. Falou breve e bem, coerente com a cerimónia e com a sua própria coerência de vida e Obra. Recebeu diploma, fotos, e um exemplar por agora único do livro que, por iniciativa de Bernardo Penabade, conseguiu reunir mais de 120 recados escritos em forma de carta, memória, assentamento atestador de admiração. Nele os adjetivos nobres e as histórias exemplares de cruzamentos de todas as ordens deixam ou sulco amplo onde arraiga um bosque de perenidade à volta deste homem bom. Bem ache”.

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