A Academia Galega da Língua Portuguesa honra Carlos Durão como “uma das personalidades mais destacadas e menos conhecidas da cultura galega”
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Na biografia e trajetória do homenageado salientam as suas produções de língua e literatura, mas também o seu ativismo social em prol de internacionalizar a situação da Galiza
AGLP 05/10/2026
A Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) honrou Carlos Durão (Madrid, 1943-Vigo, 2023), um dos seus fundadores, como um dos grandes artífices da cultura galega, e uma figura muito destacada da mesma nas seis últimas décadas. Ele é “uma das personalidades mais destacadas e menos conhecidas da cultura galega”, segundo se indicou.
A atividade decorreu na Casa da Língua Comum, sede da AGLP em Santiago de Compostela. Foi o ato central do Dia da Academia, que se comemora nos primeiros dias de outubro, para lembrar o 6 de outubro de 2008 quando, estão a completar-se 18 anos, a instituição iniciou o seu andamento.

Participação das irmãs e da viúva
A homenagem principiou com a participação de duas irmãs e da viúva de Carlos Durão. Helena, a irmã mais velha, falou da narrativa O silêncio, Nós: afirmou que ela e Carlos são os dois protagonistas da mesma, onde se refere a Galiza de finais da década de 1940 até aos inícios da década de 1960, centrada na Galiza interior e na cidade de Vigo, e escrita três décadas mais tarde em Londres.
Pia, a viúva de Carlos Durão, referiu-se à vida dos dois em Londres, onde se conheceram falando inglês: afirmou que Carlos tinha especial facilidade para as línguas e parecia mesmo inglês nativo, como também utilizava muito corretamente outras, como o russo ou o francês. Relatou a sua trajetória profissional na capital londrina, em empresas da comunicação social e da tradução internacional em organismos britânicos e do sistema da ONU. O casamento de Pia e Carlos foi em 1968, e tiveram três filhos, referindo também na sua intervenção diversos acontecimentos da convivência familiar.
As intervenções familiares finalizaram com Ana Maria, a irmã mais nova, quem avançou que falaria brevemente do ser humano que tinha sido Carlos, e ofereceu informação sobre o seu uso da língua galega no tempo da infância.

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Sessão académica
O presidente da AGLP, António Gil Hernández, abriu na continuação a sessão académica. Analisou a narrativa A Teima, que Carlos Durão escreveu em 1972 e publicou um ano mais tarde. Dedicou parte importante da intervenção a lembrar o clima social e político da Galiza em 1972, com sucessos como a repressão de Ferrol em 10 de março de aquele ano, ou a greve geral que paralisou Vigo duas semanas de setembro como acontecimentos centrais. Valorizou A teima como “uma narrativa aquática e alegórica, pelo tratamento da água, que se identifica com a vida na Galiza”. Salientou António Gil o interesse que atingiu este produto de Carlos Durão, pondo em destaque recensões de A Teima assinadas por Álvaro Cunqueiro no jornal Faro de Vigo; e por X. Luís Franco Grande, na revista Grial; ou outra de X. González Gómez. Gil Hernández colocou também em diálogo A Teima com Os dous de sempre, de Castelao, e esclareceu aspectos de interesse das sete seções do livro de Durão.

O economista Joám José Santamaria Conde salientou como conheceu e teve tratamento com Carlos Durão, e como colaboraram na recuperação, resgate e atualização do léxico galego da economia, para a sua descastelhanização, com um orientação favorável à confluência com o léxico português, doutrina que ambos defendiam já desde antes de terem coincidido no grupo das Irmandades da Fala da Galiza e Portugal. Santamaria ressaltou que Durão era também um destacado “teórico da tradução”. Na sua intervenção recuperou vários exemplos de trabalho com o léxico da economia galega para a sua adequada utilização na sociedade atual (v. gr., “orçamento”), sem castelhanismos nem termos inventados desnecessários, e mesmo com melhor acerto. Reprovou com vários exemplos o léxico da economia imposto desde o galego-castelhano nos últimos mais de 40 anos, nos quais valorizou que o galego continua a ser tratado em certos aspetos como uma língua estrangeira na Galiza.
Adela Figueroa, académica da AGLP, iniciou a sua intervenção sentido-se agradecida e honrada com a amizade de Carlos Durão e com a da sua família, bem como com imagens e lembranças que se atualizavam perante a presença da viúva, Pia, no ato da Casa da Língua Comum. Amostrou a certidão que evidencia como Carlos Durão foi reconhecido pela organização Greenpeace como representante da Associação para a Defesa Ecológica da Galiza (Adega) em Londres. Salientou a generosidade de Carlos Durão no apoio a atividades para internacionalizar problemas da Galiza na capital londrina, onde a sua casa estava “aberta” para representantes da Galiza. Referiu como um autocarro de dois andares com pessoas ambientalistas da Galiza foi acolhido na morada de Durão para participarem numa campanha internacional contra o lixo radiativo na fossa atlântica e por extensão em todos os mares do mundo. Salientou o contributo de Carlos Durão na defesa dos oceanos, pela sua função de acertado tradutor da linguagem legal, pressionando o Governo britânico. “Carlos estava sempre comprometido com a Galiza”, insistiu Adela Figueroa. “Todo o da Galiza era do seu interesse”, acrescentou. Lembrou como criou o Grupo de Trabalho Galego de Londres, e valorizou o seu trabalho para a defesa do léxico da Galiza. Adela Figuerou finalizou a sua palestra com uma tradução que lhe pediu a Carlos Durão de um belo texto que recolheu na sua presença na Casa de Galiza promovida por José Paz, na Índia, pondo em destaque a sua “sensibilidade”, e acompanhou a sua intervenção de materiais e iconografias do maior interesse. Modesto Solha, secretário-geral de ADEGA Ponte Vedra na altura, participou também na homenagem na parte final da intervenção de Adela Figueroa.

Ângelo Cristóvão, da AGLP, indicou que com este ato na Casa da Língua Comum estava-se a “homenagear uma das personalidades mais destacada e menos conhecida da cultura galega”. Lembrou a sua participação nas Irmandades da Fala da Galiza e Portugal, na Comissão Galega pelo Acordo Ortográfico, na Associaçom Galega da Língua, na Associação Amizade Galiza-Portugal, antes da sua participação e apoio ativo na Academia Galega da Língua Portuguesa, da qual foi um dos fundadores e à qual apoiou muito ativamente. Cristóvão analisou o posicionamento de Durão a respeito da língua, e o seu apoio decidido e coerente ao Reintegracionismo Galego-Português desde a década de 1970-1980. Colocou em diálogo Carlos Durão com posicionamentos de Lluis Aracil, Josep Conill, Eugénio Coseriu, Evanildo Bechara, Malaca Casteleiro, Carvalho Calero e Leodegário A. de Azevedo Filho, figuras internacionais da Linguística e Sociolinguística, bem como a sua defesa da presença galega nos Acordos Ortográficos da Língua Portuguesa de 1986 e 1990. Salientou a participação ativa de Carlos Durão no Prontuário Ortográfico das Irmandades da Fala da Galiza e Portugal, na década de 1980-1990; no Dicionário Estraviz; e sobretudo a sua coordenação do monumental Vocabulário Ortográfico da Galiza promovido e editado pela AGLP no ano 2015, como concretização do contributo galego para o vocabulário comum da língua portuguesa e segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. Salientou igualmente o esforço de Durão por uma ortofonia galega correta, em que Durão punha como modelo a de Ernesto Guerra da Cal. Finalmente referiu-se a De correctione castraporum, esclarecendo a origem deste texto de Carlos Durão.

Na continuação Iolanda Aldrei, académica da AGLP, encerrou a parte académica recuperando um texto de Carlos Durão assinado em 14 de março de 2010, de muito interesse para conhecer o percurso biográfico e a trajetória de Carlos Durão, além de várias das suas produções e atividades no âmbito social.

Ato poético
A atividade de homenagem finalizou com um recital poético, em que se leram trabalhos de Carlos Durão e no qual participaram Adela Figueroa (recitou Poemas do Não de Carlos Durão); Concha Rousia (“sempre estaremos em dívida contigo”, afirmou), Iolanda Aldrei (“muitos versos deixou em nós o Carlos por fazer o poema da Galiza”, salientou); e Alfredo Ferreiro, quem nesta mesma sessão recolheu o seu diploma como académico correspondente da AGLP.
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