A Academia Galega da Língua Portuguesa honra Carlos Durão como “uma das personalidades mais destacadas e menos conhecidas da cultura galega”

Na biografia e trajetória do homenageado salientam as suas produções de língua e literatura, mas também o seu ativismo social em prol de internacionalizar a situação da Galiza

AGLP 05/10/2026


A Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) honrou Carlos Durão (Madrid, 1943-Vigo, 2023), um dos seus fundadores, como um dos grandes artífices da cultura galega, e uma figura muito destacada da mesma nas seis últimas décadas. Ele é “uma das personalidades mais destacadas e menos conhecidas da cultura galega”, segundo se indicou.
A atividade decorreu na Casa da Língua Comum, sede da AGLP em Santiago de Compostela. Foi o ato central do Dia da Academia, que se comemora nos primeiros dias de outubro, para lembrar o 6 de outubro de 2008 quando, estão a completar-se 18 anos, a instituição iniciou o seu andamento.

Participação das irmãs e da viúva
A homenagem principiou com a participação de duas irmãs e da viúva de Carlos Durão. Helena, a irmã mais velha, falou da narrativa O silêncio, Nós: afirmou que ela e Carlos são os dois protagonistas da mesma, onde se refere a Galiza de finais da década de 1940 até aos inícios da década de 1960, centrada na Galiza interior e na cidade de Vigo, e escrita três décadas mais tarde em Londres.
Pia, a viúva de Carlos Durão, referiu-se à vida dos dois em Londres, onde se conheceram falando inglês: afirmou que Carlos tinha especial facilidade para as línguas e parecia mesmo inglês nativo, como também utilizava muito corretamente outras, como o russo ou o francês. Relatou a sua trajetória profissional na capital londrina, em empresas da comunicação social e da tradução internacional em organismos britânicos e do sistema da ONU. O casamento de Pia e Carlos foi em 1968, e tiveram três filhos, referindo também na sua intervenção diversos acontecimentos da convivência familiar.
As intervenções familiares finalizaram com Ana Maria, a irmã mais nova, quem avançou que falaria brevemente do ser humano que tinha sido Carlos, e ofereceu informação sobre o seu uso da língua galega no tempo da infância.

 

Sessão académica
O presidente da AGLP, António Gil Hernández, abriu na continuação a sessão académica. Analisou a narrativa A Teima, que Carlos Durão escreveu em 1972 e publicou um ano mais tarde. Dedicou parte importante da intervenção a lembrar o clima social e político da Galiza em 1972, com sucessos como a repressão de Ferrol em 10 de março de aquele ano, ou a greve geral que paralisou Vigo duas semanas de setembro como acontecimentos centrais. Valorizou A teima como “uma narrativa aquática e alegórica, pelo tratamento da água, que se identifica com a vida na Galiza”. Salientou António Gil o interesse que atingiu este produto de Carlos Durão, pondo em destaque recensões de A Teima assinadas por Álvaro Cunqueiro no jornal Faro de Vigo; e por X. Luís Franco Grande, na revista Grial; ou outra de X. González Gómez. Gil Hernández colocou também em diálogo A Teima com Os dous de sempre, de Castelao, e esclareceu aspectos de interesse das sete seções do livro de Durão.

O economista Joám José Santamaria Conde salientou como conheceu e teve tratamento com Carlos Durão, e como colaboraram na recuperação, resgate e atualização do léxico galego da economia, para a sua descastelhanização, com um orientação favorável à confluência com o léxico português, doutrina que ambos defendiam já desde antes de terem coincidido no grupo das Irmandades da Fala da Galiza e Portugal. Santamaria ressaltou que Durão era também um destacado “teórico da tradução”. Na sua intervenção recuperou vários exemplos de trabalho com o léxico da economia galega para a sua adequada utilização na sociedade atual (v. gr., “orçamento”), sem castelhanismos nem termos inventados desnecessários, e mesmo com melhor acerto. Reprovou com vários exemplos o léxico da economia imposto desde o galego-castelhano nos últimos mais de 40 anos, nos quais valorizou que o galego continua a ser tratado em certos aspetos como uma língua estrangeira na Galiza.

Adela Figueroa, académica da AGLP, iniciou a sua intervenção sentido-se agradecida e honrada com a amizade de Carlos Durão e com a da sua família, bem como com imagens e lembranças que se atualizavam perante a presença da viúva, Pia, no ato da Casa da Língua Comum. Amostrou a certidão que evidencia como Carlos Durão foi reconhecido pela organização Greenpeace como representante da Associação para a Defesa Ecológica da Galiza (Adega) em Londres. Salientou a generosidade de Carlos Durão no apoio a atividades para internacionalizar problemas da Galiza na capital londrina, onde a sua casa estava “aberta” para representantes da Galiza. Referiu como um autocarro de dois andares com pessoas ambientalistas da Galiza foi acolhido na morada de Durão para participarem numa campanha internacional contra o lixo radiativo na fossa atlântica e por extensão em todos os mares do mundo. Salientou o contributo de Carlos Durão na defesa dos oceanos, pela sua função de acertado tradutor da linguagem legal, pressionando o Governo britânico. “Carlos estava sempre comprometido com a Galiza”, insistiu Adela Figueroa. “Todo o da Galiza era do seu interesse”, acrescentou. Lembrou como criou o Grupo de Trabalho Galego de Londres, e valorizou o seu trabalho para a defesa do léxico da Galiza. Adela Figuerou finalizou a sua palestra com uma tradução que lhe pediu a Carlos Durão de um belo texto que recolheu na sua presença na Casa de Galiza promovida por José Paz, na Índia, pondo em destaque a sua “sensibilidade”, e acompanhou a sua intervenção de materiais e iconografias do maior interesse. Modesto Solha, secretário-geral de ADEGA Ponte Vedra na altura, participou também na homenagem na parte final da intervenção de Adela Figueroa.


Ângelo Cristóvão, da AGLP, indicou que com este ato na Casa da Língua Comum estava-se a “homenagear uma das personalidades mais destacada e menos conhecida da cultura galega”. Lembrou a sua participação nas Irmandades da Fala da Galiza e Portugal, na Comissão Galega pelo Acordo Ortográfico, na Associaçom Galega da Língua, na Associação Amizade Galiza-Portugal, antes da sua participação e apoio ativo na Academia Galega da Língua Portuguesa, da qual foi um dos fundadores e à qual apoiou muito ativamente. Cristóvão analisou o posicionamento de Durão a respeito da língua, e o seu apoio decidido e coerente ao Reintegracionismo Galego-Português desde a década de 1970-1980. Colocou em diálogo Carlos Durão com posicionamentos de Lluis Aracil, Josep Conill, Eugénio Coseriu, Evanildo Bechara, Malaca Casteleiro, Carvalho Calero e Leodegário A. de Azevedo Filho, figuras internacionais da Linguística e Sociolinguística, bem como a sua defesa da presença galega nos Acordos Ortográficos da Língua Portuguesa de 1986 e 1990. Salientou a participação ativa de Carlos Durão no Prontuário Ortográfico das Irmandades da Fala da Galiza e Portugal, na década de 1980-1990; no Dicionário Estraviz; e sobretudo a sua coordenação do monumental Vocabulário Ortográfico da Galiza promovido e editado pela AGLP no ano 2015, como concretização do contributo galego para o vocabulário comum da língua portuguesa e segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. Salientou igualmente o esforço de Durão por uma ortofonia galega correta, em que Durão punha como modelo a de Ernesto Guerra da Cal. Finalmente referiu-se a De correctione castraporum, esclarecendo a origem deste texto de Carlos Durão.

Na continuação Iolanda Aldrei, académica da AGLP, encerrou a parte académica recuperando um texto de Carlos Durão assinado em 14 de março de 2010, de muito interesse para conhecer o percurso biográfico e a trajetória de Carlos Durão, além de várias das suas produções e atividades no âmbito social.

Ato poético
A atividade de homenagem finalizou com um recital poético, em que se leram trabalhos de Carlos Durão e no qual participaram Adela Figueroa (recitou Poemas do Não de Carlos Durão); Concha Rousia (“sempre estaremos em dívida contigo”, afirmou), Iolanda Aldrei (“muitos versos deixou em nós o Carlos por fazer o poema da Galiza”, salientou); e Alfredo Ferreiro, quem nesta mesma sessão recolheu o seu diploma como académico correspondente da AGLP.

 

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FALECIMENTO DO ACADÉMICO LUÍS GONÇALES BLASCO "FOZ"

FALECIMENTO DO ACADÉMICO LUÍS GONÇALES BLASCO "FOZ"

Com grande tristeza comunicamos o falecimento de Luís Gonçales Blasco, hoje, 18 de agosto, dia em que completou 85 anos.
Era membro de número da Academia Galega da Língua Portuguesa. Escritor, professor, pesquisador e político, foi um grande filho da Galiza, bom, generoso, humilde, sábio e valente. Viveu o exílio em Paris, desde onde trabalhou pola Galiza e voltou com mais amor para continuar a tarefa. Deixa um rasto de afeto, admiração e saudade, e uma grande obra.
 
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ABERTURA DO XVI CURSO DE CAPACITAÇÃO ELABORAÇÃO DE MATERIAIS "O ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA LÍNGUA ESTRANGEIRA / NÃO MATERNA" PARA FALANTES DE GALEGO

ABERTURA DO XVI CURSO DE CAPACITAÇÃO ELABORAÇÃO DE MATERIAIS "O ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA LÍNGUA ESTRANGEIRA / NÃO MATERNA" PARA FALANTES DE GALEGO 

 Com organização do IILP, da Xunta de Galicia, da Academia Galega da Língua Portuguesa - AGLP e da Associação de Professores de Português da Galiza (APPG), o XVI Curso de Capacitação para a elaboração de materiais para o ensino da língua portuguesa língua estrangeira / não materna teve início hoje, coordenado pelas Professoras Edleise Mendes e Viviane Furtoso.

O curso, no qual participam 20 professores da rede do Governo da Galiza de ensino de língua portuguesa, visa, ao longo de uma semana, a partir de reflexões sobre o ensino da língua portuguesa no contexto galego, a produção conjunta de um núcleo, metodologicamente concertado, de unidades didáticas a serem incluídas no Portal do Professor de Português Língua Estrangeira / Língua não Materna (PPPLE) que apoie a ação dos docentes neste contexto e que constitua objeto de partilha com docentes em outros contextos de ensino da língua portuguesa.

A sessão de abertura contou com a presença e a intervenção de representantes da Xunta da Galiza e da Secretaria Xeral da Língua, do Presidente da AGLP, da Presidente da APPG e do Diretor Executivo do IILP. Aí foi destacado o propósito de consolidação da oferta da língua portuguesa como língua de primeira e segunda opção nas escolas e centros de ensino, bem como a necessidade de reforçar a formação contínua e a produção de materiais, matérias às quais a presente formação, considerada de grande relevância por todos os intervenientes, poderá conferir novos contributos e o impulso para uma colaboração mais estreita com o próprio IILP.

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(Fonte original)

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A presença da Galiza em Teixeira de Pascoaes dinamizou o encontro de Amarante com a AGLP

 Docentes e alunado da Universidade Sénior de Amarante incluiu a Casa da Língua Comum na sua visita de estudos a Santiago de Compostela

AGLP. 17/05/2026

Texto: J. Rodrigues Gomes; Fotografias: Ângelo Cristóvão; Coordenação Linguística: Antia Cortiças; Produção: Xico Paradelo.


Como “pensador e poeta do Saudosismo, e amigo dos melhores galegos de ante-guerra (1936-1939)” foi evocado Teixeira de Pascoais por António Gil Hernández, presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), na receção a um grupo de docentes e alunado da Universidade Sénior de Amarante, que visitou a Casa da Língua Comum, sede da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) em Santiago de Compostela. O grupo da cidade portuguesa incluiu esta atividade na sequência de uma visita de estudos à capital galega. Na delegação de Amarante participaram a Doutora Alda Barbosa, chefe da Divisão de Desenvolvimento e Coesão Social da Câmara Municipal de Amarante; doutora Carina Oliveira, técnica superior da Divisão citada e coordenadora da Universidade Sénior; o professor Carlos Silva; e Brites Araujo, também docente, e que é Académica Correspondente da AGLP.

 A presença de pessoas da Galiza com quem o autor teve relacionamento, além das alusões à Literatura Galega na produção de Teixeira de Pascoaes (Amarante, 1877-1952), dinamizaram este encontro. António Gil Hernández leu o poema que Pascoaes dedicou à Galiza e que foi publicado na revista Nós, “órgão do grupo académico-nacional galego conhecido como Geração Nós”; poema que principia com os conhecidos versos “Galiza, terra irmã de Portugal / Que o mesmo Oceano abraça longamente” onde alude a Rosalia de Castro e Eduardo Pondal, figuras centrais do Cânone da Literatura Galega Contemporânea. Também lembrou Gil Hernández a sua presença, com mais escritores e escritoras da Galiza, em encontros literários celebrados em Amarante a finais do século XX.

Em nome da delegação portuguesa interveio a doutora Alda Barbosa, quem destacou os relacionamentos de Teixeira de Pascoaes com a Galiza. Referiu igualmente a atividade, programação e principais disciplinas que oferece a Universidade Sénior de Amarante promovida pela Câmara Municipal da cidade.

A Geração da Lusofonia da Galiza, caminho certo

A continuação interveio Ângelo Cristóvão, numerário da AGLP e Sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa, quem falou de Apontamentos de História Social da Língua, um trabalho que se distribuiu impresso para as pessoas presentes. Falou da Geração da Lusofonia da Galiza, à qual ele adere, e que está conformada por “escritores, investigadores e professores identificados por uma posição de compromisso com a Galiza, sem cedências aos factos consumados, nomeadamente em termos do modelo de língua, produzidos em circunstâncias em que o centro de decisões se situava fora do nosso território, ou contra o nosso povo”. Sublinhou a vontade da AGLP de “dotar a sociedade de um modelo de língua condigno, ao nível de qualquer das línguas nacionais europeias. Alguns acontecimentos políticos e sociais registados desde a sua criação em 2008 indicam que este é o caminho certo”.

O ato foi apresentado e coordenado por Concha Rousia, numerária da AGLP, e teve continuidade com um recital de poesia. Nele participaram Brites Araújo, que recitou o poema de Teixeira de Pascoais dedicado a Rosalia de Castro; José Manuel Barbosa, numerário da AGLP, quem ofereceu um poema próprio, intitulado “A Guerra”, que surpreendeu pelo seu conteúdo e pela forma como foi recitado; Iolanda Aldrei, também numerária da AGLP, quem leu a “Oitava”, poema de Teixeira de Pascoais dedicado ao artista galego Álvaro Zebreiro publicado em 1925, cujos dois últimos versos, “Em ti saúdo a mística beleza / Da terra mãe da terra portuguesa” emocionaram especialmente o grupo de Amarante e as restantes pessoas presentes. Aldrei lembrou a sua participação nos encontros literários de Amarante aos quais se tinha referido António Gil Hernández, afirmando que foi neles onde tinha conhecido o Professor Ricardo Carvalho Calero, e que estavam ligados também a acontecimentos pessoais de relevo, o que fazia com que se sentisse conterrânea dessa cidade portuguesa. O ato poético finalizou com a intervenção de Concha Rousia, quem leu um poema próprio, “Quem perde a sua língua”, e evocou o eminente linguista português João Malaca Casteleiro.

“Na verdade, a Casa da Língua Comum ficou carregada de energia positiva”, sublinha Concha Rousia, após o contacto final com as pessoas de Amarante, às quais lhes foram oferecidas publicações dos fundos da AGLP.

No ato estiveram presentes mais membros da AGLP, como o professor doutor e lexicógrafo Isaac Alonso Estraviz, quem informou que este 15 de maio o seu dicionário eletrónico e-estraviz tinha atingido os 151.657 verbetes, sendo “hantavírus” o último incorporado; e continuará com a sua atualização; e o Professor Luís Gonçales Blasco.

 

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Alunado e professorado da UNIVERSIDADE SÉNIOR DE AMARANTE realiza visita de estudo a Compostela e à CASA DA LÍNGUA COMUM

No próximo dia 15 de Maio, a AGLP recebe, em Santiago de Compostela e na Casa da Língua Comum, um grupo de cerca de cinquenta alunos e professores da Universidade Sénior de Amarante.

  AGLP. 11/05/2026


Inserido numa visita de estudo da disciplina de História da Língua, este evento resulta da organização conjunta de Brites Araújo, professora daquela disciplina na Universidade Sénior de Amarante, Concha Rousia e Jesus Requena, que, em Compostela, trataram de “arquitetar” um programa que proporcionasse aos visitantes, em particular aos alunos, não só uma experiência do contexto histórico e linguístico galaico-português, como o contacto directo com o património cultural e linguístico comum.

Após um passeio pelo Centro Histórico da cidade, uma pequena comitiva, composta por alunos, professores, membros da AGLP e representantes da Câmara Municipal de Amarante, será oficialmente recebido pelo Concelho de Santiago de Compostela, breve e simbólica sessão de boas-vindas.

Seguir-se-á um almoço, no restaurante San Martin Pinario, após o qual os visitantes terão tempo livre para explorar um pouco mais das ruas, monumentos e comércio do Centro Histórico de Compostela.

Pelas 18:00h, reunião-se-ão na Casa da Língua Comum, onde serão recebidos pelo Presidente da AGLP, António Gil, e por outros membros da Academia. Da recepção na Casa da Língua Comum, constará ainda uma pequena palestra sobre a Língua e a Galiza, proferida por Ângelo Cristovão, ao que se seguirá um momento de Poesia nas vozes de Iolanda Aldrei, José Manuel Barbosa, Concha Rousia e Brites Araújo.

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Moncho do Fidalgo, numerário da AGLP com 57 anos de consciência reintegracionista: “é um movimento lento, mas seguro! Não há outra saída”

O autor da primeira narrativa longa em português da Galiza apresenta A menina da Ribeira, o seu oitavo título

 

 AGLP. 09/05/2026

Texto: J. Rodrigues Gomes; Fotografia: José Manuel Barbosa; Coordenação linguística: Antia Cortiças Leira; Produção: Xico Paradelo.


Como "uma novela realista e em partes históricas": assim apresenta José Ramão Rodrigues Fernandes , Moncho do Fidalgo, numerário da Academia Galega da Língua Portuguesa, a sua última obra, intitulada A menina da Ribeira . É o oitavo título de quem foi o primeiro autor a publicar narrativa longa em português da Galiza, um percurso iniciado em 1983, segundo salienta um estudo do professor e investigador Francesco Traficante. Outro professor, José Manuel Barbosa, afirma no prólogo deste último livro que o que faz o narrador é “deixar a sua memória pessoal convertida em memória coletiva do nosso povo galego, em memória da nossa língua, da nossa cultura, da nossa civilização e da nossa forma de pensar e de perceber o mundo”. A menina da Ribeira teve um lançamento nas Jornadas de Língua e +, que foram organizadas pela AGLP no Museu da Límia, em Vilar de Santos, onde o acompanhava Isaac Alonso Estraviz. Moncho do Fidalgo, que profissionalmente se dedica à eletrónica industrial e às telecomunicações, destaca como um ativista cultural, literário e jornalístico e fala-nos nesta entrevista de sua biografia, trajetória e produções. Está na casa dos 70, já reformado, e tem “57 anos de consciência reintegracionista”, afirma.

 -Apresenta-se A menina da Ribeira como “um romance realista e em parte histórica”: como é isso, que se deve entender por “realismo” e “romance histórico” nesta altura do século XXI?

--Bom, afirmar o realismo do século XXI é o que foca na representação objetiva da realidade. Crua e honesta, destacando questões sociais, desigualdade e vida atuais. O romance histórico, caracterizar-se-á por uma documentação ou fatos históricos, mesmo para mudar conceitos e revisar acontecimentos. A menina da Ribeira enquadra-se nestas duas visões.

 

-Publica esta narrativa em 2025, quando completa os 70 anos de idade. Parece um trabalho literário de síntese da sua vida, pois nele deparamo-nos com muitos acontecimentos conhecidos da sua biografia e trajetória. É assim?

--Sim, a personagem, Ricardo Aveiro, aparece em todas as minhas novelas e romances.

 

-Literariamente, também vamos encontrando muitos produtos seus anteriores. A Divisão Azul, por exemplo, já estava na sua primeira narrativa, O Sereno, um guerrilheiro em Estalinegrado; ou acontecimentos de Seguindo o caminho do vento, de relatos já publicados, que agora integra de novo n’A menina da Ribeira. Confirma-se assim a conhecida teoria de que sempre um escritor está a escrever e reescrever a mesma obra?

--Poderia dizer-se, o meu subconsciente é livre, não trato de o dominar, vai pela vida tocando a mesma moinheira, que, poderia interpretar-se assim, e esta seria a de Chantada... com versões diferentes e até arranjos distintos. Afinal os resultados poderiam ser obras diferentes. Nos meus anos moços estudei no Conservatório de Madrid, ensino livre: estudava numa academia e examinava-me no conservatório, quando ele estava nos baixos do Palácio da Música, em Ópera. Naquela altura não tocava mal o acordeão, mas hoje já não tenho a precisão matemática que tinha. Dizia Arthur Rubinstein que quando não tocava um dia ele notava, quando eram dois dias sem praticar, notava-o o público.

 

-Outra surpresa é o recurso cervantino de ler uma referência ao processo de composição da narrativa que estamos a ler, fala-se do livro de A menina da Ribeira no próprio livro. E também cita Cervantes, mesmo como possível produtor de ascendência galega, nas suas obras. Reconhece este autor, que é o centro do cânone literário espanhol, como uma das suas influências centrais?

--Cervantes Saavedra, apelidos galegos, tem influído em muitos escritores sem eles saberem. Os primeiros livros que os alunos leem é o Quijote, mas no meu caso acho que não tem influído. Sim Eça de Queirós no Primo Basílio ou Miguel Torga com a Vindima e Contos da montanha.

 

-O tratamento que dá à personagem da menina da Ribeira é muito diferente a outras personagens femininas da sua anterior produção, como a de Colensa de Seguindo o caminho do vento, ponhamos por caso. É esta uma mudança muito significativa, a que a atribui?

 --A Colensa faz parte de um romance e de uma ficção, A menina da Ribeira é uma pessoa real. Levamos mais de vinte anos casados.

 

-O professor Francesco Traficante põe em destaque num estudo que você foi o primeiro narrador em galego-português, com O Sereno, um guerrilheiro em Estalinegrado, editado em 1983 (2ª ed. em 1990). A menina da Ribeira é o seu oitavo título de narrativa: Como valoriza esta trajetória no campo literário galego nestes já quase 43 anos?

--Há uma realidade na Galiza, enquanto alguns vivemos para o galego, nosso idioma internacional, outros vivem do galego. Os autores que escrevemos em galego-português fazemo-lo em condições muito diferentes, não publicamos nas editoras do “regime”, não gozamos das ajudas do governo galego nem dos meios oficiais. Eu estou feliz de ter atingido uma meta considerável, dada a situação do mundo editorial na nossa nação.

 

-Em A menina da Ribeira afirma-se que a língua galega na Galiza “continua viva e vai seguir por muitos milénios mais”: em que se sustenta esse otimismo, quando os dados espelham uma situação bem distinta, caminho da substituição linguística pela língua espanhola?

--Tenho esperança na mudança da gente jovem. Observo que nas cidades começa um pequeno movimento de “neo-falantes”. Quiçá tenhamos que olhar o drama para agir?

 

-Foi secretário, da seção de Escritores em Língua Galego-Portuguesa nas Irmandades da Fala de Galiza e Portugal, como funcionou e que conseguiu com aquela experiência?

--Foi uma experiência grata, colaborar com o amigo José Luís Fontenla deu-me uma nova perspectiva, era uma pessoa otimista por natureza, as viagens a Portugal e o relacionamento com organizações portuguesas deu-me muita experiência e confiança no povo português.

 

-Desde a primeira metade da década de 1980-1990 pertenceu à AGAL e às Irmandades da Fala de Galiza e Portugal, uma dupla militância que para muitas pessoas resultava incómoda e difícil, como a lembra agora?

--Eu sempre pensei que trabalhar pelo regeneracionismo do galego era positivo. Quiçá nuca me dei de baixa da AGAL porque em certo modo ajudei a criá-la, eu que sei…!

 

-Como valoriza a evolução do reintegracionismo após mais da metade da sua vida de dedicação a esta causa?

--Eu sou “reintegracionista” desde os treze anos por diversos motivos. Quando vinham os portugueses pela minha aldeia todo o mundo comprovava que o que falavam nós o entendíamos. Após aqueles anos de infância e o meu deslocamento a Madrid com treze anos, nos Salesianos de Atocha, coincidi com alguns estremenhos, espanhóis, a falarem português... Acho que é um movimento lento, mas seguro! Não há outra saída.

 

-Na década de 1970-1980 conhecemos trabalhos seus na imprensa galega e em Portugal onde publicamente defendeu as teses de Rodrigues Lapa. Lapa mesmo lhe respondeu, e cita o seu nome, num trabalho na revista Tempo. Que significa este vulto português para si e na sua trajetória?

--Em Madrid conheci muita gente relacionada com Portugal, mesmo portuguesa, a cada passo ia afiançando mais o meu convencimento. Rodrigues Lapa foi um visionário, quando escrevi ao semanário Tempo, de Lisboa, eu ainda não tinha conhecimentos da língua bem escrita. Os conhecimentos vieram pela comunicação epistolar com Ricardo Coelho Iglésias, o português do Porto.

 

-Tem uma interessante experiência no jornalismo. Colaborou com A Nosa Terra e promoveu o projeto das publicações e a editora Renovação. Também deparamos com isso em A menina da Ribeira. Que significado lhe atribui ao jornalismo na sua produção?

Eu, de não ter estudado ciências, teria estudado jornalismo. O jornalismo usei-o sempre para desabafar, recusar ideias de política rança. Morto aquele projeto de Lôstrego, uns quantos reintegracionista co-fundamos Renovação-Embaixada Galega da Cultura. E mais tarde Renovação Edições.

 

-Em Renovação, um projeto cultural que promoveu em Madrid, para além de figuras galegas bem conhecidas que atuavam na Galiza e na capital da Espanha, também contaram com a participação de outras do exterior. Como chegaram, por exemplo, a Ernesto Guerra da Cal e como foi o contacto com ele?

--Com Guerra da Cal contactara, não lembro se fora Fontenla ou Estraviz.

 

-Do ponto de vista pessoal, cultural e mesmo literário: foi em Madrid onde encontrou o amor e a felicidade, apesar de ser uma cidade que não lhe resulta precisamente simpática, pelo que depõe dela.

--Certo, mas foram as pessoas galegas que lá moravam quem fizeram que eu me sentisse como em casa. De facto o oitenta por cento das horas passava-as a falar galego; nomeadamente, com o grande amigo meu, Isaac Alonso Estraviz, grande em todos os sentidos.

 

-Numa recente entrevista afirma que agora está a trabalhar numa nova narrativa, que diz respeito  à presença de pessoas galegas na emigração de Cuba: como está a resultar a escrita de um tema tão aliciante e distante no tempo, que materiais está a utilizar?

--De momento estou a tomar notas, amigos cubanos, livros de história...

 

-É um dos 30 fundadores da Academia Galega da Língua Portuguesa, que iniciou o seu andamento no ano 2008, e nas páginas de A menina da Ribeira inclui académicos numerários como Isaac Alonso Estraviz, Crisanto Veiguela Martins ou José Manuel Barbosa: como foi a sua participação neste tempo na AGLP, viu cumpridas as suas expetativas e que espera desta instituição?

--Bom, falo dos mais conhecidos para mim, mas tenho que dizer que António Gil foi um professor importante para mim, assessor linguístico no Seguindo o Caminho do Vento . Mas os méritos maiores foram os de Ângelo Cristóvão, ele mexeu-se, objetividade, especificações, trabalhados incansavelmente para fundar este projeto que começa a dar frutos e vai dar muito mais.

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Pleno da Fundação Academia Galega da Língua Portuguesa

AGLP 22/02/2025


Realizou-se o dia 21 de fevereiro a reunião do pleno da Fundação Academia Galega da Língua Portuguesa, sob a presidência de António Gil.

O encontro desenvolveu-se com a assistência de 22 membros de número, com a presença virtual de 2 online. Além dos assuntos burocráticos habituais, como a aprovação das contas anuais de 2025, debateu-se e aprovou-se o plano de ação para o ano 2026, bem como o orçamento associado.

A Academia organizará 15 eventos durante o ano em curso, entre os quais, o "II Encontro de Língua e mais", para o dia 21 de março em Vilar de Santos; encontros literários e culturais em Ponferrada, o dia 11 de abril, e Vila Nova de Oscos no mês de julho; as XV Jornadas de Pitões das Júnias (Montalegre), os dias 30 e 31 de maio, em colaboração com a associação Desperta do Teu Sono; o Dia da Academia, que terá lugar o dia 3 de outubro na cidade de Ourense, ou a colaboração com o Instituto Internacional da Língua Portuguesa, da CPLP.

Acordou-se também promover diversas publicações, entre outras, sobre Johán Vicente Biqueira e Castelão, e os que foram membros da AGLP, José Paz Rodrigues, Carlos Durão e Higino Martins. Completa-se o programa com apresentações públicas das novas edições em várias localidades.

A reunião continuou com uma segunda parte, orientada às novas académicas correspondentes, sendo a ocasião em que Rosário Fernandes Velho recebeu o seu diploma. A nova académica agradeceu vivamente a honra de fazer parte desta comunidade académica, e disponibilizou-se para a colaboração nas tarefas em curso.

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A Faculdade de Filologia da Universidade de Santiago acolherá, o dia 9 de fevereiro, um seminário de lexicografia em homenagem ao professor João Malaca Casteleiro

O evento, organizado pela Cátedra Institucional Carvalho Calero e a Academia Galega da Língua Portuguesa, com o apoio da Secretaria da Língua do Governo autónomo da Galiza, terá lugar na Sala de Graus da Faculdade, com início às 10 horas.

Participarão como oradores algumas das mais destacadas personalidades galegas e portuguesas no âmbito da lexicografia, além de estudiosos das obras de Carvalho e Malaca, cujo paralelismo vital foi assinalado pelo professor Carlos Quiroga, coordenador da Cátedra.

AGLP 22/01/2026


João Malaca Casteleiro foi um dos mais destacados linguistas portugueses do século XX. Licenciou-se em filologia românica em 1961, e doutorou-se em 1979, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com uma dissertação em sintaxe da língua portuguesa. Foi desde 1981 professor catedrático na mesma faculdade. Lecionou e coordenou a cadeira de sintaxe e semântica do português, no âmbito da licenciatura, e vários seminários nas áreas da sintaxe, léxico e didática no âmbito do mestrado.

Foi diretor de investigação do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, conselheiro científico do Instituto Nacional de Investigação Científica e presidiu ao Conselho Científico da Faculdade entre 1984 e 1987. Coordenou e colaborado em diversos projetos de investigação e de edição, em Portugal e no estrangeiro, em articulação com organismos como o Conselho da Europa, os Serviços de Educação do Governo de Macau e o Ministério da Educação de Portugal, entre outros.

Foi professor convidado na Universidade da Beira Interior, no Departamento de Artes e Letras. Foi membro da Academia das Ciências de Lisboa, desde 1979, e presidente do seu Instituto de Lexicologia e Lexicografia entre 1991 e 2008. Ao longo da sua carreira de professor orientou mais de meia centena de teses de doutoramento e de mestrado. Também foi membro correspondente da Academia Galega da Língua Portuguesa, tendo participado em vários seminários de lexicografia em Santiago de Compostela. Foi também patrono da Associação Internacional dos Colóquios da Lusofonia, participando durante mais de 15 anos nos eventos organizados por esta entidade, nomeadamente em Bragança e os Açores.

Em representação da Academia das Ciências de Lisboa, Malaca Casteleiro fez parte da delegação portuguesa ao Encontro de Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa, realizado na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, em 1986, participou também no Anteprojeto de Bases da Ortografia Unificada da Língua Portuguesa, em 1988, bem como nos trabalhos que conduziram ao Acordo Ortográfico de 1990, firmado nesse ano, em Lisboa.

A 24 de abril de 2001 foi feito Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

João Malaca Casteleiro foi o responsável pela versão portuguesa do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, e coordenador científico do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea e do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa editado pela Porto Editora em outubro de 2009.

 

PROGRAMA:

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Defendida tese de doutoramento sobre a Poesia Galega de Ricardo Carvalho Calero na Universidade da Corunha

Na passada sexta-feira, 19 de dezembro, foi defendida na Faculdade de Filologia da Universidade da Corunha a tese de doutoramento de Paulo Fernandes Mirás, numerário da Academia Galega da Língua Portuguesa, com o título "Edição da poesia em galego de Ricardo Carvalho Calero", sob a direção da professora Maria Teresa López Fernández.

AGLP 23/12/2025

Texto: Maria Rosário Fernades Velho


O evento decorreu na Sala de Atos, acompanhado por familiares e amigos, e foi avaliado pelos Professores Doutores Xosé Ramón Freixeiro Mato, que presidiu o júri, Diego Ribadulla Costa, da Universidade de Santiago, que atuou como secretário, e Maria Aldina Marques, da Universidade do Minho, como vogal. A tese reúne toda a poesia publicada de Ricardo Carvalho Calero, incluindo não apenas os poemas canónicos, mas também aqueles que estavam dispersos, os excluídos e os recuperados, bem como a poesia parcialmente inédita, que aparece no volume Feixe Levián, um livro até então desconhecido, além de outros poemas encontrados em bibliotecas, arquivos e até em casas particulares.

Feixe Levián foi escrito entre 1934 e 1948, durante a Guerra Civil e a Pós-guerra, um período histórico extremamente complexo para Carvalho Calero e que, para a história da literatura galega, preenche um espaço até então inexplorado. A maioria dos poemas inéditos também pertence a essa mesma cronologia. Até agora, a obra considerada inaugural da narrativa galega foi Gente da Barreira. No entanto, no que diz respeito à poesia em galego dessa época, podemos estabelecer certos paralelismos. Carvalho Calero posiciona-se entre Eugénio Montes e Álvaro Cunqueiro, inserindo-se nas Vanguardas do século XX. Este novo trabalho exige que repensemos este momento da história da nossa literatura à luz desta recente investigação.

Outro dos aspetos que esta tese revela são os posicionamentos estéticos de Carvalho Calero, herdeiros do período anterior à Guerra Civil, mas que, com o tempo, evoluem para novos caminhos, assumindo características próprias do seu momento histórico.

Estamos, assim, a avançar e a dar conta do que ainda faltava, abordando aquilo que Dom Ricardo mais valorizava na sua trajetória: antes de mais nada, ele era, e sempre se considerou, um poeta. Às controvérsias normativas sobre o Scórpio, acrescenta-se agora uma nova reflexão: o lugar que Ricardo Carvalho Calero ocupa na história da literatura galega como poeta.

A Academia dá os efusivos parabéns a Doutor Paulo Fernandes Mirás por este trabalho tão necessário, dedicado a um autor, Ricardo Carvalho Calero, que hoje também se revela indispensável, pois foi ele quem interpretou a literatura galega unicamente como a escrita em galego seguindo o critério filológico por ele próprio proposto, interpretação que a dia de hoje ninguém questiona.

  • Publicado em Academia
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